Punho

Ela dobrou a esquina e apareceu de repente.
Do muro rasteiro da rua um pedinte ergueu a cabeça para olhá-la. Ia estender a mão no seu hábito humilde de súplica, mas parou o gesto.
Do seu ponto de vista, rente aos pés de quem passa, todas as pessoas são altas. Porém, aquelas pernas de uma elegância interminável elevavam ao inatingível o seu ponto de confluência, onde o sexo seria uma inevitabilidade.
Isso aumentou o seu sentimento de exclusão, e a mão ainda parada a meio do gesto tremeu um pouco.
Por um curtíssimo instante deixou de ser um pedinte.
Foi quando uma foice de raiva lhe cortou o olhar e a mão parada a meio do gesto se ergueu num punho cerrado.

Titanic

A crise é um barco a naufragar sem salva-vidas para todos.
O governo pede que sejamos patriotas e fiquemos no porão enquanto os passageiros da primeira classe se salvam.
Os sindicatos dizem que se não há salvação para todos, que vá tudo ao fundo.
Os políticos da orquestra de câmara continuam a fazer o que sabem e dão-nos música.
Aposto que neste filme os responsáveis não têm dignidade para se afogarem com o barco.

Abril

Felizmente, a 25 de Abril de 1974 tudo mudou ao nascer do dia. Tudo, menos as pessoas com certezas.
Nós, os que temos dúvidas, temos também a honestidade de mudar frequentemente de opinião.
Eles são desonestos porque quando mudam, mudam de uma certeza para outra.

O que mudou… mesmo, mesmo?

Na ingénua ilusão de que se venham a dar ao trabalho de ler estas minhas palavras, antes de mais, endereço os meus calorosos parabéns ao meu Amigo Zé Lagoa e à sua lista vencedora e os meus respeitosos cumprimentos ao meu amigo Timóteo e à sua equipa que não considero derrotada, porque em democracia não há vencidos… ou não deveria haver. A Oposição pode e deve sentir que lhe cabe o digno papel de fiscalizar o executivo, e sempre que necessário propor alternativas em nome de todos os autarcas.

Renovo a pergunta para que o debate não morra com o acto eleitoral:

Mas, e agora?… O que mudou, mas o que mudou mesmo, mesmo?

O que é que mudou? II

Decidi eliminar o último comentário ao post ” O que é que mudou” porque no meu entender esse comentário era uma crítica de carácter a uma pessoa identificada, feita por alguém que usava o pseudónimo “Guinato”, portanto um anónimo. Além do mais, a relação com o assunto em debate era muito lateral, se não completamente inexistente.
Claro que julgo lícitas todas as críticas; mas quando são públicas, dirigidas individualmente e identificam o visado, o mínimo que se exige é que seja claramente identificável o seu autor, não só por motivos de elegância e de paridade, mas sobretudo por motivos éticos.
Não se trata portanto de parcialidade ou de censura, mas tão só de senso comum.
Acresce o facto de ter sido eu a fazer a “provocação” inicial e portanto sinto a responsabilidade de não permitir que se entre no campo do insulto e da agressão, ou seria conivente com isso.
O terceiro comentário, embora assinado por um pseudónimo (Xarope para a tosse) não é insultuoso e limita-se à esfera política, pelo que me parece aceitável.
Aos leitores em geral eu peço compreensão para esta minha decisão e estou ao dispor para responder por ela.
Manuel Bastos