Já é conhecido o programa das Festas em Honra de Nossa Senhora do Ó deste ano. A festa, que este ano decorre num formato diferente do habitual, inicia-se no próximo dia 18 de Julho e prolonga-se por quatro dias. O local também foi alterado, com a festa a ter agora lugar no Largo da Capela. Outra novidade é o facto das entradas serem livres.

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No Largo da Capela da Nossa Senhora do Ó o relógio da torre deve marcar nove e meia e as orquestras frente a frente afinam os instrumentos como dois exércitos a prepararem-se para uma batalha. Sinto o aroma doce-apimentado do leitão, o cheiro intenso da chanfana e o complexo bouquet das verduras sobre a rua, como uma passadeira aromática a indicar por onde passou a procissão. No meio do largo, as pessoas vão virar-se para um coreto e depois para o outro, conforme orquestra que tocar, mal saindo do lugar onde estão e de quarto em quarto de hora os novos altifalantes do relógio eléctrico vão berrando as horas em notas desgarradas, como se de súbito um músico tivesse enlouquecido e desatasse a tocar o que lhe viesse à cabeça, enquanto o velho sino de bronze humilhado e triste aguarda o seu segundo momento de glória do ano, quando for, amanhã de novo, solicitado para a tarefa solene de marcar o compasso da procissão.
Aqui, o silêncio na humidade do cacimbo. Aqui, o silêncio é uma harmónica misteriosa que vem não sei de onde, ora arfando, ora expirando longamente até ficar sem fôlego.
Na noite opaca com a humidade flutuante do cacimbo, a luz ao fundo da rua é apenas uma mancha amarela na ardósia molhada do céu, não ilumina nada.
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Está vazio o Largo da Capela. Porque tirei eu esta fotografia? Acho que pretendia um certo efeito que não resultou. Mas não há nada melhor para enchermos uma coisa do que ela estar vazia. Podem usar o Photoshop ou simplesmente a fantasia:
Baixemos a luz para ficar de noite; recuemos no tempo até chegarmos a 1966; ponhamos gente a correr furtivamente, de um lado para o outro, grupos de pessoas, a dar a ideia que são assaltantes. Isso! São mesmo assaltantes e chamam-se a si próprios de trupes, e não vão assaltar assim uma coisa à toa, vão assaltar todas as casas de Aguim que puderem, para roubarem, quase de certeza, as maiores coisas que lá existem: Os carros-de-bois.
Claro! É o costume carnavalesco, que consiste no roubo ritual de carros de tracção animal, especialmente carros-de-bois, praticado normalmente por várias trupes, na noite do sábado para domingo gordo e que tem como finalidade acumulá-los junto à entrada da capela, para dificultar o acesso à missa de domingo.
Os donos dos carros utilizam vários expedientes e armadilhas para impedir que os seus carros sejam levados, sendo comum utilizarem excrementos para os sujarem e tornarem escorregadios, prenderem-nos ao chão ou carregarem-nos com materiais muito pesados, o que não vale de nada, porque a regra aqui é: quanto pior, melhor.
Acendam a luz! Quem quiser saber mais que peça os arquivos do Aguim On-line ao Zé Cipriano.
Aquele foi provavelmente o último “acartamento” de carros a sério. Acabámos todos no posto da GNR de Anadia com um processo policial, movido por um automobilista que não conseguiu passar. Não teve consequências, graças ao próprio comandante do posto, que declarou para os autos que se tratava de um costume tradicional ancestral, que não tinha qualquer objectivo de perturbação da ordem pública.



