O Mistério da Foto da Capelinha de S. José – 3

A mancha do Arvoredo apenas salpica a margem esquerda da fotografia. O Arvoredo não é um arvoredo, é o Arvoredo. O substantivo comum ganhou dignidade de topónimo ou até de nome próprio. Se procurar entre as páginas dos meus sonhos de infância a silhueta daquelas árvores são o papel de cenário de todas as minhas aventuras imaginadas.

Neste dia não era domingo, nem feriado, apesar das roupas domingueiras. Era dia de festa, porque o meu avô está de gravata. E como sempre, com a cabeça inclinada para o lado. Progressivamente passou a incliná-la também um pouco para trás, o que lhe dava, não sei porquê, um ar importante. Aparece assim, em todas as fotografias que lhe conheço, com aquele torcicolo patriarcal. As crianças no primeiro plano da fotografia têm blusas brancas, por ser um dia especial. Não olham para a máquina para ficarem na fotografia. A fotografia para elas ainda era uma arte desconhecida, por isso, não dão qualquer importância ao fotógrafo, não olham para a máquina como esperaríamos de quaisquer crianças; estão mais interessadas naquele grupo de pessoas que ficaram quietas e caladas de repente, e viradas todas para o mesmo lado.

Alguma coisa, no entanto, chama subitamente a atenção de uma das jovens que estão sentadas no primeiro degrau. Deve ser suficientemente interessante para uma delas chamar a atenção da outra, que no momento crucial da fotografia esquece a pose e olha para trás. Quisera ser eu que tivesse passado na estrada, e quisera ter despertado, eu, a atenção daquelas jovens. Um olhar apenas, através dos tempos. Eu da idade delas, a caminhar despreocupado, com um fato de festa também, e elas a desviarem o olhar, do fotógrafo para mim, a estragarem a pose porque eu passei na estrada, a cochicharem um segredinho, a sorrirem uma cumplicidade, a incendiarem uma provocação. Tudo em menos de um pestanejar. Uma sinfonia inteira numa única nota.

O som dos foguetes distrai-me o suficiente para que avance demais e não consiga corresponder com naturalidade àquele olhar. Continuo o meu caminho em direcção à banda de música que em breve toma conta da rua. Dirige-se para casa de um dos mordomos do ano que vem que os aguarda com vinho e chanfana e vai receber um foguete que guardará como testemunho.

O grupo de pessoas a posar para a fotografia abandonou a pose e aproxima-se para ver melhor a banda.

A minha avó veste roupas muito claras, o que assegura que ainda vivem todos quantos ama. A minha mãe… a minha mãe é muito jovem… é jovem demais para ser eu quem o meu avô segura pelos ombros…

A banda e toda aquela gente passam por mim, como a água de um rio, que avança contornando, indiferente, os obstáculos. Passam por mim, as pessoas e o tempo, que eu não pertenço a este tempo, ainda não nasci, sou um fantasma de um tempo futuro que olha especado para o passado congelado numa fotografia.

De súbito as formas ganham opacidade. Deixam de ser representações de pessoas e árvores, e regressam à sua condição primária de manchas de tinta sobre o papel; e eu sinto o pânico de Narciso traído pelo tempo, ao descobrir, não a minha imagem envelhecida sobre o lago, mas a imagem de um estranho no meu lugar; que nunca conheci, que jamais conhecerei; que me rouba o carinho póstumo do meu avô. Uma história a que não pertenço. Um lugar e um tempo irremediavelmente estranhos para mim.

Reponho a foto na caixa de papel como quem fecha a tampa de um caixão, para impedir que um cadáver me assombre.

Só a luz do Sol me restitui a confiança, no terraço da casa da adega. Paro um pouco a olhar o casario e a Capelinha de S. José ao fundo.

Ali, um dia, alguém tirou aquela foto à minha família antes de eu ter nascido, antes de eu ter os privilégios de filho único. Um momento no tempo em que tudo existia do mesmo modo, mas sem mim, e em que tudo fazia sentido na mesma. Sinto-me um mero acidente na inexorável consumição do tempo. Um leve percalço, e tudo levaria um rumo diferente, um rumo que não me incluiria neste mundo. E a realidade constrói-se-me sem mistério nenhum, sem transcendência, sem poesia sequer. Eu, ou qualquer outro no meu lugar, não faz a menor diferença.

Parto dali como um proscrito. Fujo em busca de alguém que me conheça. Alguém que me assegure a existência com um átimo da sua atenção; porque só o afecto que recebemos nos garante que não somos apenas um acidente irrelevante; um rosto desconhecido numa foto antiga.

O Mistério da Foto da Capelinha de S. José – 2

O céu ao fundo entre as árvores está reduzido a uma ausência de cor devido ao monocromatismo esquálido da fotografia. Envolvendo a capela, algumas oliveiras evitam que a fotografia pareça despida. Os ramos pararam para sempre, alheios à aragem da tarde de Verão. Sim, é de tarde porque as sombras projectam-se para nascente, e é Verão porque o meu avô está de camisa de manga arregaçada. Os ramos pararam para toda a eternidade quando o clique da máquina se fez ouvir. Não é um clique. É o som que fazia a cortina, o obturador e o diafragma da máquina, em acorde; antes de ser substituído pelo estalido insípido das máquinas digitais. Aquele ruído que fazia com que as pessoas se descontraíssem da pose forçada que mantiveram durante os últimos preparativos do fotógrafo. Mas não se descontraem logo, respiram fundo primeiro, olham umas para as outras e depois é que mudam de posição, como se não fosse permitido ficarem como estavam depois da foto tirada. De seguida as conversas interrompidas continuam pouco a pouco a reformularem-se.

O fotógrafo é amador; um fotógrafo profissional fotografaria o grupo mais de perto, para se conhecerem melhor as pessoas, ou de mais longe para não cortar o pináculo da capela que tem uma estranha forma de flecha com uma cruz em cima.

O fotógrafo é seguramente o meu tio brasileiro, porque só ele reuniria parentes afastados para uma fotografia; para levar como recordação quando voltar ao Brasil.

O fotógrafo afasta-se um pouco para a direita, muito pouco, só o suficiente para não cair num buraco que está no chão. Atrás do buraco está uma enorme pedra com cerca de meio metro de altura, de forma vagamente paralelepipédica. Isto não aparece na fotografia; nem nesta nem em nenhuma outra que eu tenha visto; de certo, devido a os fotógrafos verem naquele conjunto um baixo valor estético, e uma falta de bom senso o manter-se assim uma pedra daquele tamanho com um buraco à frente durante todo o verão, mesmo em frente da capelinha de S. José.

É a pedra da sesta. Só será enterrada no dia da festa do Crasto, a oito de Setembro, para que termine o direito dos jornaleiros descansarem depois de almoço, ou melhor, depois de jantar, como se chamava à segunda refeição do dia em Aguim, que a bucha é parca mas comida com orgulho, e as palavras, se não alteram a essência das coisas, podem até fazer-nos crer que chega para empanturrar o estômago, aquilo que na realidade não enche a cova de um dente. O almoço é de manhã, com o resto da ceia da véspera, e por isso não lhe chamam pequeno, que a enxada é pesada e não se mexe sozinha.

O enterramento da pedra é um acto pouco festivo, ou nada; nessa altura a festa é em Anadia. Aqui parece mais um funeral; ou não se tratasse de oficializar a perda da sesta como um direito laboral. No dia de S. José, a 19 de Março, é uma festa dentro de outra festa. Os jazes, como começam a ser chamados os pequenos grupos musicais em que os metais vêem substituindo os acordeões e os instrumentos de corda, ficam a tocar sozinhos ao despique, nos coretos do Largo do Sobreirinho, e as pessoas vêem juntar-se em torno da entrada da capelinha para assistir a uma outra competição: uma parelha de cavadores tenta superar em rapidez os que no ano anterior desenterraram a pedra da sesta. Depois fica ali a pedra e o buraco a desafiar o bom gosto de quem alia as tradições populares à falta de desenvolvimento.

Muitos séculos depois de os Celtas nos terem deixado o seu culto da pedra, como um legado para sempre perdido, ele chega a Aguim nesta reminiscência importada da vizinha povoação abandonada de Vila Franca, há décadas atrás, acompanhando a imagem do S. José, para a qual construíram esta capelinha, à frente da qual, agora, os meus antepassados me olham através dos tempos.

Então um dia, há-de vir finalmente alguém, com a arrogância dos ignorantes e a prepotência dos espíritos pragmáticos, reduzir a brita, e sepultar debaixo de uma camada de alcatrão, definitiva e ingloriamente, esta tradição única da Pedra da Sesta.

… a CONTINUAR

O Mistério da Foto da Capelinha de S. José – 1

O sótão da casa da adega é um amontoado de lixo. E este amontoado de lixo é a arqueologia da minha vida. Objectos mortos; amortalhados de pó. Cadáveres de objectos, quietos no tempo à espera que os esqueçam de vez, para que possam finalmente dissolver-se na terra mãe de onde vieram.

Avanço furtivamente, com o sentimento de quem profana um túmulo. Afasto as teias de aranha que parecem panos impregnados com a alma do tempo, e que boleiam a forma dos objectos, como um lençol cobrindo um cadáver.
Sopro o pó de uma enchó do meu avô, e ela parece que acorda ganhando humanidade. Um foicinho da minha avó. Uma podôa do meu pai. Um bastidor da minha mãe. Sem a mortalha de pó, ressuscitam e parece que procuram as mãos dos donos, as mãos que calejaram, as mãos que os moldaram a eles. Não são objectos em série, são objectos feitos pelo uso, que ganharam o jeito do dono; noutras mãos seriam maljeitosos. Eram prolongamentos dos braços, como próteses ortopédicas; partes sobrevivas dos meus antepassados.

Caiu-me à frente uma caixa de papel levantando uma nuvem de pó.

Quando a nuvem de pó se dissipou, um grupo de pessoas olhou-me de frente. Imóveis. À medida que os meus olhos procuram os pormenores da fotografia, parece que se movimentam um pouco. A sua imobilidade dá-lhes um ar sarcástico, parecendo desafiar-me, e dou por mim a pretender apanhá-los na fraqueza de um movimento. Desvio o olhar para uma mancha do papel e volto a prestar-lhes atenção. Esta disputa demora uns segundos; o suficiente para se tornar uma patetice. Mas não consigo dominar-me. Os meus olhos traem­‑me e voltam sempre como que atraídos por aquelas figuras que parecem zombar de mim, olhando-me de frente; como um friso de espectadores estáticos mas atentos, em frente do palco; suspensos da acção que decorre aqui, onde, eu o actor, devesse dizer a próxima fala, efectuar o próximo movimento.

Há um pormenor da fotografia que acaba por me prender a atenção. A posição carinhosa e protectora do meu avô, segurando-me pelos ombros. O meu avô tinha uma má relação com os seus sentimentos. Não era homem de grandes manifestações de afecto, o que lhe valeu a alcunha de Vinagre. Lembro-me que me embalava cantando canções obscenas; e essas canções são a única manifestação de afecto de que me recordo. Vê-lo assim naquela atitude carinhosa e protectora faz­‑me subir um novelo de saudade, lentamente até à garganta, vindo não sei de que memórias.

… a CONTINUAR …

Capelinha de S. José antiga

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“Não se mexam!”, disse o fotógrafo, e as pessoas pararam de falar e ofereceram o que julgavam ser o seu melhor ângulo. Ficaram um momentinho assim à espera do clique da máquina. E ficaram assim até hoje.

Aposto que alguém disse antes de desmontar a pose: Cuidado! Para que o fotógrafo não caísse num buraco que está atrás dele. E atrás do buraco está uma enorme pedra com cerca de meio metro de altura, de forma vagamente paralelipipédica. Está lá, posso garantir, desde o dia de S. José, porque é a Pedra da Sesta que só voltará a ser enterrada no dia da festa do Crasto, a sete de Setembro, para que termine o direito dos jornaleiros descansarem ao meio-dia.

Capelinha de S. José

Posted by Hello

Confesso: é preciso gostar de um lugar para esperar um ano inteiro de modo a que as folhas das árvores ganhem as cores quentes do verão de São Martinho. Depois basta trepar a um telhado para escolher o ângulo impossível e esperar que a luz acentue o mistério das sombras e deixe o branco tão imaculado quanto o da roupa no coradouro. Mas é preciso ficar escarranchado no cume do telhado à espera que chegue gente para que o quadro ganhe vida.

Vocês, não sei, mas eu consigo sentir o cheiro bom do estrume que vai na carroça.