Partilhe as suas fotos da festa

As festas em honra de Nossa Senhora do Ó começam amanhã e com certeza muitos de vós irão tirar fotografias aos seus vários momentos. Desde a procissão até ao jogo de solteiros – casados, passando pelos bailes.

Venho então lançar um repto para a partilha dessas mesmas fotografias com a restante comunidade aguinense. Para isso basta, depois de tirar as fotos, ter uma conta no Flickr, fazer o upload das suas fotografias para o site e marcá-las com a tag “nso2009aguim“. É assim tão simples. Caso não tenham ainda uma conta neste popular serviço de partilha de fotografias, o registo no site é fácil e gratuito.

No final, se a adesão tiver sido suficiente, publicarei aqui no aguim.net um slideshow com todas as fotos para que todos possam ver e que servirá de foto-reportagem da festa deste ano.

Depois disso poderão também juntá-las ao grupo dedicado a Aguim que serve de fonte às fotografias que aparecem ali na coluna do lado direito.

Resumindo,

  1. Tirar fotografias durante a festa (quantas mais, melhor).
  2. Carregá-las para o Flickr.
  3. Marcá-las com a tag “nso2009aguim” (importante!).
  4. Adicioná-las ao grupo de Aguim (opcional mas recomendado).

Partilhe as suas fotos de Aguim

Como podem ver, no topo da página encontra-se uma fotografia. Uma fotografia que foi tirada por mim durante um magusto que se realizou no largo da capela em 2003. Apesar de no momento aparecer sempre a mesma fotografia essa zona está preparada para fazer a rotação entre várias imagens diferentes.

Apelo assim à participação dos leitores que queiram contribuir com fotografias para essa zona. Quem assim desejar pode enviar uma fotografia (ou várias) para blog@aguim.net. No blog as fotos serão apresentadas num tamanho de 596 por 125 pixeis pelo que deverão ter pelo menos esta dimensão (fotos maiores serão editadas). Agradeço desde já todas as participações.

Relembro também que existe um grupo dedicado a Aguim no Flickr, um serviço de partilha de fotografias. Qualquer pessoa pode adicionar fotografias a esse grupo. Essas fotografias são mostradas, aleatoriamente, também na barra lateral deste site.

O Mistério da Foto da Capelinha de S. José – 3

A mancha do Arvoredo apenas salpica a margem esquerda da fotografia. O Arvoredo não é um arvoredo, é o Arvoredo. O substantivo comum ganhou dignidade de topónimo ou até de nome próprio. Se procurar entre as páginas dos meus sonhos de infância a silhueta daquelas árvores são o papel de cenário de todas as minhas aventuras imaginadas.

Neste dia não era domingo, nem feriado, apesar das roupas domingueiras. Era dia de festa, porque o meu avô está de gravata. E como sempre, com a cabeça inclinada para o lado. Progressivamente passou a incliná-la também um pouco para trás, o que lhe dava, não sei porquê, um ar importante. Aparece assim, em todas as fotografias que lhe conheço, com aquele torcicolo patriarcal. As crianças no primeiro plano da fotografia têm blusas brancas, por ser um dia especial. Não olham para a máquina para ficarem na fotografia. A fotografia para elas ainda era uma arte desconhecida, por isso, não dão qualquer importância ao fotógrafo, não olham para a máquina como esperaríamos de quaisquer crianças; estão mais interessadas naquele grupo de pessoas que ficaram quietas e caladas de repente, e viradas todas para o mesmo lado.

Alguma coisa, no entanto, chama subitamente a atenção de uma das jovens que estão sentadas no primeiro degrau. Deve ser suficientemente interessante para uma delas chamar a atenção da outra, que no momento crucial da fotografia esquece a pose e olha para trás. Quisera ser eu que tivesse passado na estrada, e quisera ter despertado, eu, a atenção daquelas jovens. Um olhar apenas, através dos tempos. Eu da idade delas, a caminhar despreocupado, com um fato de festa também, e elas a desviarem o olhar, do fotógrafo para mim, a estragarem a pose porque eu passei na estrada, a cochicharem um segredinho, a sorrirem uma cumplicidade, a incendiarem uma provocação. Tudo em menos de um pestanejar. Uma sinfonia inteira numa única nota.

O som dos foguetes distrai-me o suficiente para que avance demais e não consiga corresponder com naturalidade àquele olhar. Continuo o meu caminho em direcção à banda de música que em breve toma conta da rua. Dirige-se para casa de um dos mordomos do ano que vem que os aguarda com vinho e chanfana e vai receber um foguete que guardará como testemunho.

O grupo de pessoas a posar para a fotografia abandonou a pose e aproxima-se para ver melhor a banda.

A minha avó veste roupas muito claras, o que assegura que ainda vivem todos quantos ama. A minha mãe… a minha mãe é muito jovem… é jovem demais para ser eu quem o meu avô segura pelos ombros…

A banda e toda aquela gente passam por mim, como a água de um rio, que avança contornando, indiferente, os obstáculos. Passam por mim, as pessoas e o tempo, que eu não pertenço a este tempo, ainda não nasci, sou um fantasma de um tempo futuro que olha especado para o passado congelado numa fotografia.

De súbito as formas ganham opacidade. Deixam de ser representações de pessoas e árvores, e regressam à sua condição primária de manchas de tinta sobre o papel; e eu sinto o pânico de Narciso traído pelo tempo, ao descobrir, não a minha imagem envelhecida sobre o lago, mas a imagem de um estranho no meu lugar; que nunca conheci, que jamais conhecerei; que me rouba o carinho póstumo do meu avô. Uma história a que não pertenço. Um lugar e um tempo irremediavelmente estranhos para mim.

Reponho a foto na caixa de papel como quem fecha a tampa de um caixão, para impedir que um cadáver me assombre.

Só a luz do Sol me restitui a confiança, no terraço da casa da adega. Paro um pouco a olhar o casario e a Capelinha de S. José ao fundo.

Ali, um dia, alguém tirou aquela foto à minha família antes de eu ter nascido, antes de eu ter os privilégios de filho único. Um momento no tempo em que tudo existia do mesmo modo, mas sem mim, e em que tudo fazia sentido na mesma. Sinto-me um mero acidente na inexorável consumição do tempo. Um leve percalço, e tudo levaria um rumo diferente, um rumo que não me incluiria neste mundo. E a realidade constrói-se-me sem mistério nenhum, sem transcendência, sem poesia sequer. Eu, ou qualquer outro no meu lugar, não faz a menor diferença.

Parto dali como um proscrito. Fujo em busca de alguém que me conheça. Alguém que me assegure a existência com um átimo da sua atenção; porque só o afecto que recebemos nos garante que não somos apenas um acidente irrelevante; um rosto desconhecido numa foto antiga.

O Mistério da Foto da Capelinha de S. José – 1

O sótão da casa da adega é um amontoado de lixo. E este amontoado de lixo é a arqueologia da minha vida. Objectos mortos; amortalhados de pó. Cadáveres de objectos, quietos no tempo à espera que os esqueçam de vez, para que possam finalmente dissolver-se na terra mãe de onde vieram.

Avanço furtivamente, com o sentimento de quem profana um túmulo. Afasto as teias de aranha que parecem panos impregnados com a alma do tempo, e que boleiam a forma dos objectos, como um lençol cobrindo um cadáver.
Sopro o pó de uma enchó do meu avô, e ela parece que acorda ganhando humanidade. Um foicinho da minha avó. Uma podôa do meu pai. Um bastidor da minha mãe. Sem a mortalha de pó, ressuscitam e parece que procuram as mãos dos donos, as mãos que calejaram, as mãos que os moldaram a eles. Não são objectos em série, são objectos feitos pelo uso, que ganharam o jeito do dono; noutras mãos seriam maljeitosos. Eram prolongamentos dos braços, como próteses ortopédicas; partes sobrevivas dos meus antepassados.

Caiu-me à frente uma caixa de papel levantando uma nuvem de pó.

Quando a nuvem de pó se dissipou, um grupo de pessoas olhou-me de frente. Imóveis. À medida que os meus olhos procuram os pormenores da fotografia, parece que se movimentam um pouco. A sua imobilidade dá-lhes um ar sarcástico, parecendo desafiar-me, e dou por mim a pretender apanhá-los na fraqueza de um movimento. Desvio o olhar para uma mancha do papel e volto a prestar-lhes atenção. Esta disputa demora uns segundos; o suficiente para se tornar uma patetice. Mas não consigo dominar-me. Os meus olhos traem­‑me e voltam sempre como que atraídos por aquelas figuras que parecem zombar de mim, olhando-me de frente; como um friso de espectadores estáticos mas atentos, em frente do palco; suspensos da acção que decorre aqui, onde, eu o actor, devesse dizer a próxima fala, efectuar o próximo movimento.

Há um pormenor da fotografia que acaba por me prender a atenção. A posição carinhosa e protectora do meu avô, segurando-me pelos ombros. O meu avô tinha uma má relação com os seus sentimentos. Não era homem de grandes manifestações de afecto, o que lhe valeu a alcunha de Vinagre. Lembro-me que me embalava cantando canções obscenas; e essas canções são a única manifestação de afecto de que me recordo. Vê-lo assim naquela atitude carinhosa e protectora faz­‑me subir um novelo de saudade, lentamente até à garganta, vindo não sei de que memórias.

… a CONTINUAR …