Coragem

Os generais da junta médica militar mediram-me de alto a baixo e fizeram o que lhes mandaram fazer: deram-me alta porque a minha cama fazia falta para tanto ferido que a guerra fabricava. E ficou deliberado que ao sair dali eu estaria restabelecido. – Assine aqui. – Não assino nada. – É uma ordem. Não […]

Milagre

No hospital de Hamburgo havia muita gente que acreditava em milagres, mas nem todos os pernetas que foram a Lourdes tinham fé. Porém o Giló andava em silêncio a matutar naquilo. Pelo sim pelo não, mais valia acreditar. E nós, cínicos, encorajávamo-lo. No regresso, o Giló vinha envergonhado por ainda estar perneta. Apesar de cínicos, […]

Dormidas

No Cais do Sodré um sem-abrigo dormita de mão estendida. O braço direito esticado e apoiado sobre o joelho. Um boné sebento na mão diz a quem passa: “Dêem qualquer coisinha”. Dormita, porque é difícil manter os olhos abertos à indiferença humana. Na esquina da rua, uma porta diz a quem passa: “Dormidas”. Em frente […]

Misses

O médico olhou para o Lemos e concluiu que, ainda assim, muito do Lemos se tinha salvo, e perguntou a pergunta que perguntava sempre: – Sente-se bem? E o Lemos: – Sr. Doutor, tenho a impressão que o meu pénis está a modos que sem acção. No Domingo à tarde, as vencedoras do concurso das […]

Mina

A fila de soldados deixava marcas de pés no chão. À medida que as marcas eram feitas ouvia-se um pequeno ruído como se o chão gemesse ao ser pisado pelos pés dos soldados. Às vezes o chão fazia um ruído muito maior ao ser pisado. Nunca devemos pousar os pés num chão que não nos […]

Guerra

O vento soprava vindo de Sueste. Uma farripa de cabelo passava-me à frente dos olhos entrecortando a paisagem. Claro, escuro. Claro, escuro. As palavras do Dr. Diógenes a falar do dever e da honra. As palavras do meu pai a falar de afectos. A guerra à espera. Como se podem tomar decisões com o cabelo […]

Cão

Uma árvore caída sobre um rio. A água passando alheia a este drama. A impressão que longe daqui me morreu alguém. Muito longe daqui. Quem se importa? Um cão ladra ao longe só para aumentar este desalento.

Setembro

Quando o Verão era mais barato apanhávamos a camioneta para a Costa Nova. Passávamos a ponte de madeira a pé. Ao longe cones de sal. Se só os cones eram brancos, porque é que aquelas manhãs de Setembro da minha infância passaram para os meus sonhos?

Cansaço

À hora em que o sol preguiçoso de Outono se servia da erva alta para desenhar longas pestanas de sombra sobre o pó da estrada de Vale de Cide, eu olhava os jornaleiros, cansado só de ver os corpos estamagados pelo martírio do farpão nas leivas barrentas dos vinhedos do Solão. A minha doce lassidão […]

Relâmpagos

Quem faz a história é o leitor. Por isso nem tudo deve ser descrito, para que os silêncios entre as palavras deixem espaço à sua imaginação. Eu só apanhei estas palavras por aí e pouco mais fiz com elas. Um pouco mais de poesia e seriam música, um pouco menos e seriam preces. Não te […]