Vila Franca

Antiga povoação localizada entre a E.N. 1 e o rio Cértima (a poente da C.P. junto ao local hoje denominado de Salgueira, do limite da freguesia de Nossa Senhora do Ó de Aguim), no município de Anadia (Estrada de ligação do lugar do Peneireiro e Ventosa do Bairro, esta do concelho da Mealhada).

Extinta nos finais dos “anos 20”, sabendo-se que o seu último residente se chamou Joaquim Simões.

Pelas consultas feitas, ficamos com a ideia de serem as suas origens tão remotas como as de Aguim. E, se desta se sabe que a mais antiga referência data de 1101, de Vila Franca só se poderá falar de um costume sem igual, (que se conheça) na região, e talvez até no país: o “desenterrar a SESTA e o “enterrar a SESTA, que mais não era do que o exumar de uma enorme pedra, em 19 de Março, e o enterrar da mesma, em 8 de Setembro, marcando assim o início e o fim da SESTA dos trabalhadores rurais.

Sobre este assunto poderá ler-se no “Conto de Aguim” do Dr. José Rodrigues: «E meditando sobre ela (referia-se à usança) somos levados a pensar se lhe não estará, porventura, ligada uma reminiscência dum culto céltico da pedra. E, da mesma forma, se à superstição popular de que cuspir no lume pode atrair a desgraça de ficar para sempre a língua seca, o de que nele urinar pode resultar o “mal da pedra”, não estará ligado o culto longínquo do fogo. Tais cultos existiam entre os Lusitanos, segundo parece averiguado.»

De Vila Franca sabe-se ainda que, em 1758 e em Termos Paroquiais, já não era designado como povoação mas sim como póvoa de poucos fogos, tal como Vale de Cide (esta extinta no final do século XVIII, cujo local se designa por Vale de Cid).

“Motivos da extinção”

Parece-nos que na época, a povoação não teria tido outra alternativa que não a extinção, (considerando que tenha sido certamente uma aldeia próspera, dado estar implantada num pequeno planalto circundado pelo Vale do Rio Cértima, na altura despoluido, de terras férteis onde, desde o azeite ao vinho, tudo se produzia), já que abandonadas pelo poder não havia, na altura, o peso dos votos, sem espaço e com acessos precários, limitada pela estrada e pelo rio e, posteriormente, asfixiada com a implantação do Caminho de Ferro, as pessoas viram-se obrigadas a transferir-se para as povoações vizinhas, em particular Alpalhão e Aguim e mais para esta, não só por já ser rica a sua história, mas também porque era um importante centro comercial e cultural.

Teria sido, talvez, factor de peso, o facto de ser constituída por gentes essencialmente rurais e de Aguim se impor como o maior “patamar” das várzeas do Cértima e Vale de Cid. Houve como uma transferência de lugar não sentida, já que as propriedades e os grandes patrões se mantinham, ficando ainda melhor localizadas para o cultivo das terras.

“Motivos para a reabilitação”

Nos “anos 70”, originado pelo aumento populacional, pela falta de políticas habitacionais (já as haverá?) e o alto custo dos terrenos, voltou a desenvolver-se na zona uma “febre de construção” Não esquecer que Aguim foi um couto e “COUTO” é ainda hoje feudal, e as pessoas, particularmente as mais humildes, obrigam-se a construir onde, por herança, possuem terras.

Hoje, com 7 habitações, beneficiando da criação da zona industrial de Anadia, mas no limite da freguesia de Nossa Senhora do Ó de Aguim, tornou-­se um local de passagem dos operários vindos das povoações vizinhas (Ventosa do Bairro, Arinhos, etc.). Passagem essa dificultada pela P. N. 239,570, dado o seu horário de abertura ao trânsito.

Todos estes factores e a criação da freguesia de Nossa Senhora do Ó de Aguim, em 1989, se conjugaram para que o poder político fosse já alertado e sensibilizado para o facto de “direito à vida” da povoação que renasce.

Assim, o Presidente da Junta apresentou à Assembleia de Freguesia, na sessão de Setembro de 1992, uma proposta para a reabilitação da povoação de Vila Franca, a qual mereceu, tanto da Junta como da Assembleia, a aprovação unânime. Esta proposta foi por fim também unanimemente aprovada em reunião do Executivo da Câmara Municipal de Anadia em 15 de Abril de 1993 e pela Assembleia Municipal, em Junho do mesmo ano.

José Cerveira Lagoa, in Aqua Nativa n.º 6, Julho 1994

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