As Rivalidades entre Aguim e Povoações Limítrofres

A análise da violência latente de uma comunidade deve considerar tanto as manifestações internas como as que se dirigem ao exterior. Internamente à comunidade, a violência encontra-se sujeita a uma ritualização mais ou menos complexa. A vindicta popular apresenta-se «como manifestação de censura, protesto, crítica ou represália, sob o aspecto de troças ou sátiras colectivas, em actos ou palavras, contra atitudes que traduzem forças ou princípios de desagregação moral ou social do grupo, ou como maneiras de sublinhar determinados acontecimentos que constituem inovações mais ou menos frustradas ou excepções à rotina do viver típico» [1]. Neste âmbito se integram as assuadas (manifestações de «protesto ou represália colectivos e ruidosos […] contra o autor ou autores definidos de um certo acto ou atitude») [2], as pulhas («sátiras acusatórias», humorísticas, por vezes infamantes, comuns no Carnaval, em que se publicitam as faltas e as fraquezas de certas pessoas) [3] e os testamentos («feitos em nome de personagem fictício», como por exemplo o «Entrudo», a «Velha», o «Judas», os «Compadres» e as «Comadres», etc) [4]. De algumas delas, damos nota no artigo sobre as tradições de Aguim. Embora a violência que estas práticas encerram cheguem por vezes ao confronto físico, a regra é elas serem «em si mesmas inofensivas, livres de elementos de agressão efectiva e as mais da vezes apenas verbais» [5].

Uma das manifestações curiosas de oposição dentro de Aguim é o hábito, ainda recente, de as crianças, nos seus jogos de futebol, praticados no Largo do Sobreirinho, dividirem a povoação em duas partes para formar as duas equipas: os de cima, do norte, contra os de baixo, do sul. No entanto, como os de cima (vivendo na parte antiga e mais povoada) eram sempre em número superior, em geral cediam alguns jogadores aos de baixo.

A violência de uma comunidade manifesta-se também na relação com as povoações circunvizinhas. E então, apesar do seu carácter aparentemente gratuito, concretizam-se em «verdadeiras guerras entre aldeias» [6], que explodem em ocasiões propícias. «O pároco de Baçal relata fielmente alguns exemplos do fim do século XIX e princípios do século XX: alguns duraram um dia e uma noite, outros saldaram-se por mortos e dezenas de feridos.» [7] A frequência e a naturalidade com que, nalguns casos, as agressões irrompiam no arraiais permite atribuir-lhes uma componente ritual não desprezível, salientada por Pierre Sanchis a propósito de um caso ocorrido no século passado:

«(…) em 1825, o bispo Frei José Maria de Sant’Ana e Noronha, de Bragança e Miranda, descobre com estupefacção que, na sua diocese, as festas celebradas em honra dos santos incluem como que oficialmente uma batalha campal entre grupos de jovens (…) a luta é sistematicamente organizada, por si mesma, gratuitamente, como uma festa – a festa religiosa. Realiza-se enfim num combate real sem sublimação nem simbolismo, que pode terminar com a morte.» [8]

Sem que seja possível explicar convenientemente a dimensão ritual das rivalidades e lutas entre aldeias, elas parecem remeter para uma afirmação de indentidade e supremacia local. [9]

Conforme refere Manuel Viegas Guerreiro, as desavenças entre aldeias vizinhas «são de todos os tempos e povos. Em documentos da nossa Idade Média não faltam notícias delas. Damos como exemplo o que se lê nos Costumes da Guarda, século XII-XIII: “(…) toda a aldeya que se sobre outra levantar cum armas ou a derrumper peyte 50 soldos”.» [10]

Os conflitos resultam directamente da delimitação dos baldios de duas comunidades contíguas, da disputa pela posse de uma escultura religiosa e de outro motivos, por vezes insignificantes ou mesmo desconhecidos, mas que se repercutem em desordens violentas ou, mais simplesmente, em alcunhas atribuídas aos lugares vizinhos. [11] A rivalidade entre Tamengos e Aguim revela-se, neste aspecto, exemplar: é extremamente intensa antiga e de motivação incerta.

Tamengos

Joaquim da Silveira, em artigo publicado sob pseudónimo, no Jornal de Anadia de 14-VI-1913, há portanto mais de oitenta anos, apresenta a primeira referência escrita que conhecemos da rivalidade entre Aguim e Tamengos. Cita um ditado popular desta zona com o seguinte teor:

«Homem da Mata,
Mulher d’Aguim
E mula que faz – him!
– Longe de mim…»

E atribui-o, maliciosamente, a «alguém de Tamengos»: «íamos apostar que a biliosa diatribe é da autoria de alguém de Tamengos». [12]

O que primeiro ressalta quando perguntamos a razão das tensões entre Aguim e Tamengos, quer as pessoas sejam de uma aldeia ou da outra, é a menção à antiguidade do fenómeno. Em geral respondem:

– Não sei, mas é uma coisa muito antiga. Já no meu tempo… Já o meu avô dizia…

Após curtos momentos de reflexão, o motivo mais consensual é a titularidade administrativa. Tanto em Tamengos como em Aguim, as rivalidades acabam sempre, em última instância, por ser imputadas ao problema de esta povoação não ser sede de freguesia mas desejar sê-lo, visto em tempos ter encabeçado um concelho rural. [13] Verbalmente, o problema coloca-se em termos de inferioridade, superioridade e independência: «não quererem ser inferiores», «quererem ser superiores», «quererem (ou queremos) ser independentes». Antes de Aguim ter integrado a freguesia de Tamengos, na década de 1830, não teria havido portanto motivo para rivalidade, supondo-se assim que ela é posterior a esta data.

Uma das mais profundas aspirações dos habitantes de Aguim foi, por isso, a criação de uma freguesia de que fossem titulares. Na Aqua Nativa n.º4, de Junho de 1993, pp. 65-66, referimos as movimentações ocorridas em 1929 e 1931 nesse sentido, embora sem sucesso. Venceram as pressões de Tamengos, lideradas por António Pessoa de Seabra e pela família Cabral, como sugerem os nossos entrevistados.

Um dos paradoxos da titularidade administrativa de Tamengos resulta de ser uma povoação muito inferior ao de Aguim. As pessoas daquele lugar atribuem este facto à centralidade de Tamengos relativamente à área ocupada pela freguesia. Assim, a reforma administrativa dos anos 1830 tomou Tamengos para sede de freguesia, não pela sua dimensão, mas por se encontrar numa posição central.

Um dos momentos cruciais da rivalidade entre Aguim e Tamengos foi, durante décadas, o período da catequese, isto é, as cerca de 5 ou 6 semanas em que, nesta povoação, entre a Páscoa e a véspera dos dia de Corpo de Deus de cada ano, se juntavam as crianças da freguesia para aprender a doutrina católica e fazerem a comunhão solene. [14] Era corrente, desde pelo menos o princípio deste século e até há alguns anos, que, após a catequese, ao fim da tarde, os miúdos de Tamengos e Aguim se envolvessem em confronto. As crianças de Tamengos apedrejavam as de Aguim, levando-as até às pontes (consideradas tacitamente a fronteira natural das disputas) e as de Aguim, a partir delas, rechaçavam as de Tamengos.

Entre os rapazes, o namoro de uma rapariga de Aguim ou a mera passagem por esta povoação, sobretudo após anoitecer, era motivo de conflito. Na ladeira que conduz à Estrada Nacional n.º 1, a espera aos de fora era feita sobretudo no cimo, junto ao arco que em tempos ligava as propriedades do Dr. Luís Navega, situadas de cada um dos lados da estrada. Eram também habituais as zaragatas em Vila Franca (povoação extinta cerca de 1930 e hoje reabilitada a poente do Peneireiro), por ocasião das festas de S. José.

A atribuição de um nome ao apeadeiro hoje denominado de Aguim, em 1937 ou 1938, suscitou grandes distúrbios, com os habitantes de Tamengos a pretenderem dar-lhe o nome da sede de freguesia e os de Aguim a salientar que passava por terras desta povoação. Em Tamengos, algumas pessoas consideram que foi a morte inesperada de Joaquim Seabra, presidente da Junta de Freguesia, que permitiu a Aguim vencer a disputa.

Além destes episódios, a rivalidade mantém-se latente sob a forma de má vontade. Esta opinião encontra-se em ambas as povoações, apesar da unanimidade com que são salientadas as sólidas amizades existentes entre habitantes de cada uma delas. Em Tamengos, por exemplo, quando uma porta teima em fechar-se, as pessoas dizem:

– A porta é como as das adegas de Aguim: Está sempre a fechar.

Nos arredores (e não apenas em Tamengos), os naturais de Aguim são apelidados, com intenção depreciativa, de guinatos. Esta designação remonta, pelo menos, a meados do século XIX. Joaquim Martins de Carvalho, num artigo sobre a velha Rua de Coruche (tornada Visconde da Luz depois do alargamento e rectificação de que foi objecto entre 1858 e 1866), publicado em O Conimbricense de 26-II-1870, atribui um grande bairrismo dos moradores desta rua. Na sua opinião, «quase todos os habitantes da rua do Coruche eram da Bairrada», sendo abundantes as alcunhas. Havia Assa Ratos., Bacalhaus, Chaporros, Chincos, Fagulhas, Farronças, Russos e muitas outras alcunhas, entre as quais destacamos a de guinato. [15]

Os aguinenses reconhecem que a palavra é depreciativa; usá-la para com eles corresponde a uma ofensa. No entanto, alguns utilizam-na por graça, com uma intenção afirmativa. Em relação aos naturais de Tamengos, não se conhece nenhuma designação especial, sendo por vezes apelidados os «do lado de lá do rio». [16]

As rivalidades entre as duas aldeias tiveram o seu último episódio no processo de formação da freguesia de Aguim. Em Tamengos, uma opinião radical protestou contra o facto em si e outra, talvez maioritária, revelou-se energicamente contra a fronteira escolhida: «quase que vieram apanhar a igreja de Tamengos». Enquanto os habitantes desta povoação apontavam a Estrada Nacional N.º 1 ou a linha do caminho-de-ferro, os de Aguim, apoiados em escrituras antigas, usos vários e até em certa lei que dá preferência a linhas de água, exigiam que a delimitação se fizesse pelo rio Cértima, o que veio a acontecer não sem que surgissem incidentes por ocasião de uma procissão nocturna que transportava uma imagem de Aguim para Tamengos. Os distúrbios relacionaram-se com o local exacto onde o andor deveria transitar para os ombros de homens deste último lugar.

Alpalhão

José Cerveira Lagoa acha que o motivo da rivalidade com Alpalhão, hoje integrando com o Peneireiro e Vila Franca (povoação recentemente reabilitada) a freguesia de Aguim, foi a posse da escultura de S. José existente na capela da então extinta povoação de Vila Franca. O problema colocou-se em termos de força e não de legitimidade; foi o fim desta povoação e a ruína da capela, por volta de 1930, que tornou necessário o transporte da imagem. Nenhuma outra povoação disputou a sua posse, talvez porque Tamengos e Espinhal estivessem mais longe e porque os últimos habitantes de Vila Franca migraram sobretudo para Alpalhão e Aguim.

O fundamento das rivalidades entre estas duas aldeias será, assim, puramente pontual, sem antecedentes nem consequências. Sobre o «roubo» do santo, diz o Sr. José Portela:

«Não sei como isso aconteceu. Estava em minha casa e passa o José Domingos com o santo ao colo, e aquilo é que era cantar. Assaltaram a capela de Vila Franca, tiraram o santo e correram o lugar todo de Aguim com ele.»

Passou-se isso, como dissemos, cerca de 1930. No dia em que os de Aguim foram buscar o santo, os de Alpalhão preparavam-se também para fazer o mesmo. Por causa disso, houve algumas cenas de pancadaria. Mas Aguim, que se antecipou, é que ficou com a escultura. Diz-se que na disputa esta se teria partido mas, a ser verdade, foi de imediato substituída por outra (adquirida para o efeito), que se encontra na capela do Largo do Sobreirinho, construída propositadamente para acolher o santo.

Algumas pessoas de Tamengos, sempre prontas a realçar as rivalidades de Aguim com todas as povoações limítrofes (ao mesmo tempo que enaltecem as boas relações que mantêm com Horta, Mata, etc.), acham que a inclusão de Alpalhão na freguesia de Aguim só foi possível através da falsificação de assinaturas dos seus habitantes, que, alegadamente, preferiam manter-se na freguesia de Tamengos. Em resposta, os de Aguim alegam a absoluta incorrecção deste rumor, desafiando quem quer que seja a apresentar provas.

Grada

As pessoas de Aguim que entrevistámos recordam-se de disputas à pedrada entre crianças da escola primária na época em que as de Grada iam à escola de Aguim, mas não atribuem a este facto um grande relevo. Ficámos no entanto com a ideia de que a rivalidade existente ultrapassa estes incidentes.

Em Tamengos conta-se uma história relacionada uma vez mais com disputas territoriais. Maria Odete Ferreira Rolo acha que há muita rivalidade entre Aguim e Grada, embora menos do que com Tamengos. E cita a rixa pela posse do Rego das Tolas (leia-se Tólas), que demarcava as duas povoações e, também, as freguesias de Tamengos e Vila Nova de Monsarros. Pelos anos de 1949 ou 1950, a imagem de Nossa Senhora de Fátima percorreu todas as paróquias do País, tendo passado da freguesia de Ventosa para a de Tamengos e desta para a de Vila Nova de Monsarros, permanecendo oito dias em cada uma. Na procissão que a transportou de Aguim para Vila Nova de Monsarros surgiram distúrbios no Rego das Tolas por causa do local exacto em que a escultura devia passar de mãos, o qual seria o limite de Aguim. A raiz destes acontecimentos é em tudo similar ao que provocou os distúrbios ocorridos há meia dúzia de anos com Tamengos.

Que as tensões entre Grada e Aguim são significativas retira-se do facto de aquela povoação se ter, ao que parece, recusado a integrar a nova freguesia de Aguim, ao contrário do que sucedeu em 1929-31. [17]

Anadia

Sobre as rivalidades entre Aguim e Anadia, apresentamos um interessante depoimento prestado por José Cerveira Lagoa, actual presidente da Junta de Freguesia de Aguim:

«Eu acho que há rivalidade com Anadia, embora correcta. Rivalidade não quer dizer inimizade. Mas há uma coisa curiosa. Aguim, com todo o seu historial de brincadeiras em relação às pessoas de fora, foi sempre uma povoação que acolheu bem os seus visitantes. Nunca lhes regateou de comer e de beber. Se for pessoa que mereça ser bem recebida, é mesmo bem recebida. Caso contrário, é afastada nem que seja de modo violento. Das duas uma: ou as pessoas são bem recebidas ou não são sequer recebidas. Isto é correcto, porque separa o trigo do joio.

A rivalidade com Anadia centra-se, em parte, na fama que têm os aguinenses de comer da gaveta. Há razões históricas para que esta fama nascesse, embora tal se diga de outras povoações próximas (Ancas diz a mesma coisa de Sangalhos, por exemplo). Foi em Anadia que nasceu essa fama; é de pessoas desta vila que os aguinenses ouvem mais vezes (e com maior intenção ofensiva) esta expressão. Curiosamente, as pessoas da Mealhada não falam dos aguinenses como os que comem da gaveta, o que significa que enquanto Aguim esteve incluído no concelho da Mealhada não houve razões de queixa de parte a parte.

Por ocasião dos festejos de Nossa Senhora do Ó, que são há muito dos mais grandiosos do concelho, os convidados e os naturais comiam e bebiam com abundância. Esta franqueza não resultava com os de Anadia, que gostavam mais de comer dos outros do que de dar.

O que me chegou pela tradição foi que, após a integração da freguesia de Tamengos (e da povoação de Aguim incluída) no município de Anadia, os funcionários administrativos e judiciais (que nalguns casos haviam trabalhado em Aguim quando esta povoação era sede de um concelho rural, na década de 1830) costumavam ir a Aguim por ocasião da festa de Nossa Senhora do Ó, onde eram bem recebidos. Este facto nem admira. Aguim foi sempre, como dissemos, uma terra onde se comeu e bebeu à farta. Ainda hoje, a festa de Nossa Senhora do Ó movimenta milhares de contos, abatendo-se um elevado número de cabeças de gado. Nesta quadra, convida-se com franqueza os amigos, nomeadamente os de fora, para ir a casa tomar um copo. E atrás do copo vem logo uma caçoila de chanfana, porque nestas alturas nós, os de Aguim, não nos fazemos rogados, e toca de comer e beber.

Pelo contrário, durante os festejos de S. Sebastião os de Aguim que compareciam às cerimónias e arraial raramente eram convidados com a mesma franqueza. Ora, se acolhemos bem as pessoas e, ao invés, num dia de festa, nem um copo nos oferecem, o tratamento está desequilibrado.

Foi para reagir a esta disparidade de tratamento que as pessoas de Aguim começaram a comer da gaveta. A tradição manteve mesmo a memória do comportamento adoptado, que, ao contrário do que a expressão indica, não se traduzia por comer da gaveta e fechá-la quando batiam à porta. [18] Durante as festas de Nossa Senhora do Ó, quando alguém batia à hora da refeição a comida não estava na mesa, porque aquela havia sido antecipada meia ou uma hora. De modo que, ao receber o visitante diziam:

-Eh, acabámos agora de almoçar. Se tinha vindo meia hora mais cedo, almoçava connosco.

Deste facto, repetido anos após ano, os de Anadia – e eu falo de Anadia porque foi de lá que eu ouvi sempre a expressão – começaram a criar a fama de que os aguinenses comiam da gaveta, explicação plausível para o desaparecimento da comida.»

Em Tamengos, algumas pessoas confirmam a ideia de que os anadienses são mais amigos de receber do que de dar. O conteúdo do depoimento de José Cerveira Lagoa recebeu, no entanto, o seguinte comentário de alguém de Anadia:

«É claro que, em Anadia, a explicação é outra, e a expressão de que os de Aguim comem da gaveta não é, apenas, atribuída a estes, mas a algumas outras povoações, cujos habitantes, merecida ou imerecidamente, são tidos como forretas ou unhas de fome, incapazes de dar uma sede de água, não a um amigo, mas a um qualquer forasteiro.

Consideramos inteligente a explicação aguinense, na medida em que reverte a situação em seu favor, revelando, embora, um certo fundamentalismo na separação dos bons e dos maus ou dos amigos e dos que não têm oportunidade de o ser.»

Conclusão

As rivalidades entre Aguim e as povoações limítrofes constituem, entre outras coisas, a face visível de um elevado sentido comunitário. As tradições dos embuçados, do baptismo do marco, do casamento das cachopas e do transporte de carros no Carnaval revelam uma intensa vivência comunitária, que se repercute em formas particularmente fortes de controlo social interno e de distanciamento em relação ao e exterior.

As circunstâncias religiosas (procissões e posse de imagens) e a delimitação territorial constituem dois aspectos à volta dos quais as rivalidades se têm manifestado. Podemos hoje perguntar-nos até que ponto elas se mantêm vivas. O recente caso Aguim – Tamengos parece mostrar a sua vitalidade. No geral, contudo, a sua intensidade tem decrescido. Este facto talvez se relacione com mudanças importantes no sentimento comunitário das povoações e em particular de Aguim, onde a quebra de velhas e intensas tradições comunitárias denota alguma diminuição do espírito gregário.

Todas as pessoas de fora de Aguim concordam, contudo, em atribuir aos aguinenses um bairrismo pouco comum. A desunião interna desaparece sempre que existe uma causa forte. A comparação com Tamengos serve, portanto, ainda hoje, como um catalizador de energias.

Nuno Rosmaninho, in Aqua Nativa n.º6, Julho 96

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Notas

[1] Ernesto Veiga de Oliveira, «Formas fundamentais de vindicta popular em Portugal» (1959-60), Festividades Cíclicas em Portugal, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1984, p. 339 (voltar)

[2] Idem, p. 340. (voltar)

[3] Idem, pp. 346-347. (voltar)

[4] Idem, p. 350. (voltar)

[5] Idem, p. 339 (voltar)

[6] Pierre Sanchis, Arraial, Festa de um Povo. As romarias portuguesas. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1983, p. 175. (voltar)

[7] Idem, p. 176. (voltar)

[8] Pierre Sanchis, ob. cit. p. 178. O Autor salienta que, antes desta data, os eclesiásticos «auxiliavam, autorizavam ou assistiam» à luta, tornando-a, assim, «um acto do conjunto da comunidade camponesa, guiada pelo pastor». (voltar)

[9] Ainda hoje, os jogos de futebol amador são ocasião propícia para o despoletar de grandes cenas de pancadaria, que é legítimo comparar às que anteriormente se geravam nos arraiais. Sobre isto, escreve Pierre Sanchis (ob. cit.): «Em certas aldeias (Tinalhas, por exemplo), onde as zaragatas (lutas entre aldeias), eram ainda há pouco particularmente importantes, o jogo de futebol – sempre com outra colectividade – herdou visivelmente a função polarizadora das energias e da consciência de si do grupo local.» (voltar)

[10] Manuel Viegas Guerreiro, Pitões das Júnias. Esboço de monografia etnográfica. Lisboa, Serviço Nacional de Parques, Reservas e Património Paisagístico, 1981, p. 70. (voltar)

[11] Idem, pp. 69-70. (voltar)

[12] Th. Ramires (pseudónimo de Joaquim da Silveira), «Aguim. Notas históricas», Jornal de Anadia, Anadia, ano XXIII, nº 1161, sábado, 14 de Junho de 1913. Moisés Espírito Santo, no seu livro Freguesia Rural ao Norte do Tejo. Estudo de sociologia rural (Lisboa, Instituto de Estudos para o desenvolvimento, 1980, p. 107), refere que no Reguengo do Fetal, freguesia dos arredores de Leiria, aparece por vezes gravado em azulejos colocados à entrada das casas um adágio similar: «Da mula que faz hiinnn, da ovelha que diz mééé, e da mulher que fala latim, libera nós dominé» (voltar)

[13] Com a recente criação da freguesia de Aguim, teria assim desaparecido o principal motivo de rivalidade entre os habitantes destes dois lugares. (voltar)

[14] Nesta zona, as pessoas usavam antigamente o termo engemina (ou ingemina?) como sinónimo de doutrina. (voltar)

[15] Este interessantíssimo artigo de Joaquim Martins de Carvalho encontra-se republicado em: Armando Carneiro da Silva (nota preambular, síntese e índices), Anais do Município de Coimbra (1840-1869), Coimbra, Biblioteca Municipal, 1973, pp. XXIV-XXXV. Ver em particular as pp. XXIX-XXX. (voltar)

[16] Os habitantes de outras povoações da zona têm também designações populares, de explicação problemática. Os de Grada são conhecidos por espanhóis, sugerindo o Sr. José Portela que isso pode dever-se ao seu falar algo serrano, hoje praticamente desaparecido. Os de Famalicão são conhecidos por russos e os de Ventosa do Bairro por rabinos («os rabinos de Ventosa»). (voltar)

[17] José Cerveira Lagoa, não tendo presente os factos de 1929-31, nega porém que os habitantes de Grada se tenham recusado, no presente, a integrar a nova freguesia de Aguim: «Nunca foi solicitado qualquer abaixo-assinado em que estivessem envolvidas pessoas de Aguim e, também, nunca fui a Grada pedir qualquer opinião. Dados os entraves postos por Tamengos, essa intenção criaria uma dificuldade adicional, pois seria necessário um parecer da Junta de Freguesia de Vila Nova de Monsarros e respectivas Assembleia de Freguesia, o que atrasaria mais o processo.» (voltar)

[18] Tivemos notícias de que na região do Fundão, algumas pessoas mais mesquinhas escondiam efectivamente a comida na gaveta quando pressentiam a chegada de estranhos. Não surpreende por isso que, em tempos de maiores dificuldades económicas, essa prática fosse comum não a povoações no seu todo mas a alguns indivíduos. (voltar)