Arte em Aguim

Casa dos Cerveiras
Frontaria brasonada da Casa dos Cerveiras

Não há muito para falar sobre vestígios artísticos na nova freguesia de Aguim. Contudo, no pouco que há para referir, dois casos se destacam, por assumirem uma certa projecção, não só a nível local, como até regional.

Os que aqui vamos analisar, embora de forma breve e sucinta, são os seguintes: a Capela da Virgem ou Nossa Senhora da Expectação (ou do Ó) e a Casa Antiga dos Cerveiras.

A Capela de Nossa Senhora da Expectação (ou do Ó)

Actualmente, este edifício já tem funções de Igreja, visto Aguim ter adquirido também o estatuto de paróquia.

Como vemos, é dedicada à Virgem ou Nossa Senhora da Expectação, igualmente designada por Senhora do Ó. Esta designação provém do facto, como todos sabemos, de representar a Virgem antes ainda de dar à luz seu filho Jesus Cristo.

Não sabemos ao certo a data da sua construção mas sabe-se ser anterior ao séc XVIII, já que na porta aparece gravada a data da sua reconstrução geral, que decorreu no ano 1718.

Senhora do O
A Senhora do Ó (Virgem da Expectação)

Quanto à igreja, que Nogueira Gonçalves considera “relativamente grande para aldeia”, trata-se de um edifício com apenas uma nave, além de contar com uma capela-mor e, no lado esquerdo da fachada principal, uma torre sineira. Decerto, esta torre sofreu alterações em épocas bastante modernas nomeadamente no sentido de ser alteada.

Sobre a porta da fachada, naturalmente rectangular, encontramos um frontão, no qual se enquadra um pequeno nicho. Mais acima, encontramos um pequeno óculo, dividido em quatro partes.

No interior, o arco cruzeiro é decorado no lado da frente com almofadas corridas; do outro lado encontramos rectângulos e círculos contendo faixas.

O púlpito localiza-se na parede esquerda da nave da igreja. Tal como quase todo o edifício, é de pedra; a sua decoração obtém-se com a representação de folhas de acanto, distribuídas em três séries; além disso, conta com grades de madeira torneada.

De estilo semelhante ao do arco cruzeiro e do púlpito é o pequeno lavabo, que podemos encontrar na sacristia.

Saliência, ainda, para o coro sobre a entrada principal da igreja; tem acesso pela escada que conduz também à torre sineira. De construção em madeira, mostra sinais da passagem dos tempos, necessitando de algumas obras de conservação.

Sobre a decoração, devemos começar pela da capela-mor, com especial evidência para o retábulo, tanto o principal, como os colaterais; todos eles terão sido elaborados durante a segunda metade do séc. XVIII.

O retábulo principal apresenta um tribunal, ladeado por duas colunas, tendo no meio um nicho. Os retábulos colaterais são compostos por pilastras, sob a forma de mísulas.

Existem nesta Capela vários elementos escultóricos, sempre com figurações religiosas; se em termos estéticos ou técnicos, várias destas figuras não apresentam uma grande qualidade, deveremos realçar algumas, cuja antiguidade é apreciável.

O caso mais antigo será uma representação de S. Miguel, datada da primeira metade do séc. XV; realizada em calcário por um artista da oficina coimbrã, tão importante naquela época, mostra o herói dominando o demónio (o dragão) e segurando a balança da Justiça; recorde-se que a tradição atribui a S. Miguel uma vitória em luta contra aquele animal quimérico.

Igreja
Igreja de N.ª Sr.ª do Ó

Pouco posterior é outra escultura de pedra, representando a Virgem com o Menino. Não será uma obra de grande rigor estético, mas o tratamento dado às vestes da imagem, emprestando-lhe uma certa sensação de movimento, é já característico do gótico tardio. A sua datação localiza-se na transição do séc. XV para o séc XVI.

As restantes peças escultóricas são datadas já da segunda metade do séc. XVIII, bastante posteriores, portanto. Aliás, vimos já acima que também os retábulos, tanto o principal como os laterais, são obras realizadas nesta mesma época.

Uma das esculturas em questão mostra a padroeira do edifício, a Senhora do Ó, obra em barro, de dimensões razoáveis, em comparação com as restantes. Esta imagem encontra-se exposta num altar, expressamente para o efeito, localizado à direita da nave da igreja.

Os restantes exemplares formam como que um par, pois representam os pais da Virgem, S. Joaquim e Santa Ana. São obras em pedra, sem qualquer motivo especial de reparo, embora as suas roupagens e os gestos mostrem um bom desempenho artístico.

A Casa Antiga dos Cerveiras

De acordo com Soares da Graça, no seu artigo do “Arquivo do Distrito de Aveiro”, Machado de Castro em Aguim (p.161), a Casa dos Cerveiras é uma “obra cujo traçado se deve ao insigne estatuário [Machado de Castro] e que é uma elegante construção apalaçada, de linhas sóbreas, tipo pombalino, que pertenceu ao Bispo D. José Xavier Cerveira e Sousa, cujas armas episcopais enobreceram a fachada principal do edifício”

Como podemos concluir, apesar de ter sido construida já no séc. XIX, esta casa apresenta um estilo que revive o que foi usado em finais do século anterior, com profundo gosto pombalino. E embora seja difícil identificar o arquitecto responsável, é ideia geral de que o escultor Machado de Castro teve influência na escolha desse artista, ou, como parece querer informar Soares da Graça, terá sido ele próprio o responsável por esse projecto.

Seria normal verificar-se esta situação, devido às relações privilegiadas entre o escultor e a família Cerveira, tal como é explicado noutro trabalho desta publicação.

O edifício é composto de dois pisos, embora apareça um terceiro, sob a forma de mansarda, mas só sobre a parte central. Tem uma altura bastante elevada, pelo que o seu pé direito é razoável.

A fachada, sendo bastante ampla, é dividida em três partes por pilastras. Nas partes (panos) laterais há apenas dois vãos, enquanto no pano central encontramos três vãos.

Abundam as formas rectilíneas nesta fachada, pois todas as suas partes, além das dimensões bastante amplas e de certa simplicidade, têm uma forma rectangular. A principal excepção está na porta e nas três janelas altas, que apresentam vergas curvas.

Em ambos os lados da casa há motivos que interessa referir. Do lado esquerdo, encontramos um portão do pátio, datado do séc. XVII (anterior ao edifício, portanto).

Do outro lado surge uma capela pequena. No chão desta capela encontra-se uma campa, cujo letreiro permite concluir quais foram os objectivos da sua edificação: tratou-se de sepultar a segunda esposa de D. António Xavier de Cerveira e Sousa, D. Maria José Pereira e Costa, falecida com apenas 27 anos (apesar de já casada em segundas núpcias, pois era viúva do Comendador Costa), em 1842, Foi trasladada para aquela sepultura dois anos depois, em 1844, conforme se pode ler no letreiro acima referido:

Nesta capela existe uma obra digna de realce: trata-se do Retábulo dos Santos Físicos. Sendo considerada uma obra de primeira importância para a Renascença coimbrã, é mesmo atribuida a João de Ruão, escultor nascido em Ruão na Normandia, cerca de 1500.

Assim facilmente concluimos tratar-se de um retábulo bastante antigo, datado de princípios do séc. XVI, com probabilidade de ter sido executada na década de 1530. O padre Nogueira Gonçalves data-a dos decénios de 1520-30, mas se nos lembrarmos que o artista veio para Portugal, mais propriamente para Coimbra, em 1530, pensamos que não será errado datar a realização deste retábulo nos anos 30 daquele século.

Casa dos Cerveiras
Casa da Quinta do Tanque ou dos Cerveiras – classificada como património arquitectónico nacional. A classificação abrange o grupo escultórico de São Cosme e São Damião, de finais do séc. XVIII, existente na capela anexa à casa, e cuja autoria é atribuida a Joaquim Machado de Castro I.I.P., Decreto N.º 129/77 de 29-9

Apesar de ter vindo ainda jovem para o nosso país, pois contava aproximadamente 30 anos, João de Ruão trouxe-nos muitos dos mais importantes ensinamentos artísticos da sua terra, à mistura com visíveis influências da Renascença italiana.

O seu percurso na nossa terra tem certo interesse, pois, começando com inúmera encomendas e um rigor estético a toda a prova (o que lhe permitia trabalhar para uma clientela seleccionada), viria algum tempo depois a demonstrar algumas dificuldades económicas, já que os trabalhos escasseavam e a sua qualidade também começava a ser discutível. Quanto mais se aproximava do final da sua carreira, mais os seus trabalhos perdiam em termos de qualidade.

Contudo, o retábulo em questão ainda é do período mais produtivo do artista. Representa os Santos Cosme e Damião em dois nichos, separados por uma coluna em forma de balaústre. Na parte exterior , duas pilastras com decoração de motivos essencialmente vegetais. O basamento é simples, com influências dóricas. Menos simples é o entablamento que, apesar de ser direito, tem decoração semelhante à das pilastras. No centro do entablamento, ao cimo da coluna-balaústre, encontra-se um pequeno escudo.

Os santos são representados ao gosto renascentista, sem demonstrar grande movimento, mas ainda assim não absolutamente estáticos, o que é conseguido pela atitude dos braços, mostrando os seus atributos de médicos (um, o vaso de uroscopia; outro, a boceta de medicamentos), e pelas roupagens devidamente ajustadas aos corpos, caindo de forma natural.

Sob a base destas figuras, um pedestal representa o busto de três figuras masculinas de outros médicos, ou físicos, da Universidade de Coimbra.

Pena é que não seja possível recuperar esta obra pois, apesar de ainda não muito degradada, começa a mostrar os efeitos de alguma corrosão, natural numa obra tão antiga.

Rui Godinho, in Aqua Nativa n.º 6, Julho 1994

Notas:

As fontes utilizadas não são numerosas, destacando-se apenas os seguintes casos:

Machado de Castro em Aguim
de Soares da Graça,
in “Arquivo do Distrito de Aveiro”,
Vol. VI, N. 23, set. 1940, p. 161/176

Inventário Artístico Português – Aveiro – Sul
de Nogueira Gonçalves,
capítulo dedicado a Anadia, p. 94/95

Há, ainda, referências com alguma importância nas seguintes obras:

Estudos de História da Arte da Renascença
de Nogueira Gonçalves,
Coimbra, 1979, p. 168/169

João de Ruão, Escultor da Renascença Coimbrã
de Nelson Correia Borges,
Coimbra, 1980

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