Aguim – Notas Históricas

Mulher de Aguim
Mulher de Aguim com traje característico (Foto: Luis Alegue)

Sobre Aguim e a sua toponímia escreveu o Dr. Joaquim da Silveira, ilustre filólogo, natural da Fogueira (Sangalhos), no “Jornal de Anadia”, de 14 de Junho de 1913 (sábado), semanário que se publicava em Anadia (o nº a que nos reportamos é o 1161) sob o pseudónimo de Th. Ramires, o artigo que se segue. A identificação de Th. Ramires como Joaquim da Silveira deve-se ao poeta anadiense Virgílio de Abreu, que colaborou no mesmo Jornal, segundo divulgação mais recente feita por Arsénio Mota, na colectânea “Estudos de toponímia da Bairrada e outras notas”, de Joaquim da Silveira (edição que teve o apoio exclusivo da “Casa Rodrigues Lapa” e Câmara Municipal de Anadia).

“A antiga villa de Aguim é hoje a povoação mais populosa do nosso concelho, pois tem, pelo ultimo senso, 825 habitantes, enquanto que Anadia apenas tem 814.

A sua posição em sitio elevado, juncto á velhíssima estrada nacional de Coimbra ao Porto, dominando a fresca e amena varzea do Certima, dá-lhe um aspecto airoso e domingueiro.

Não se sabe e epocha em que ali se fundaram as primeiras habitações humanas.

Mas é legitimo suppor que ella remonte até aos tempos do dominio romano, visto que de caracteristica origem romana é o nome do individuo de quem Aguim herdou o seu, como adeante veremos.

Os mais antigos documentos conhecidos, que se referem a esta villa, são do inicio do sec. XII.

O primeiro é uma carta de venda de metade da quinta de Mirógos (villa de Morógonus) de abril de 1101, ou seja da era 1139, em que se declara que dicta quinta confronta do nascente com Villa Aquilin, norte com Tamengos e poente com Ventosa. Existe no Livro Preto da Sé de Coimbra, guardado na T. do Tombo.

E claro que Aquilin deu Aguim pela queda do l intervocalico como o lat. umbilicus deu umbigo.

Por carta de julho do anno 1140 (era 1178) D. Affonso Henriques em paga de serviços e a troco de 60 maravidís de ouro fez de Aguim (Aguiin) um couto, comprehendendo n’ele as povoações de Tamengos, Mata e Horta, e o deu ao cabido da Sé de Coimbra.

Segundo essa interessante carta, o couto comprehendia toda a actual freguesia de Tamengos, também já então existente com a invocação de S. Pedro, e o seus limites eram marcados da seguinte forma.

«Pelo Motem Aureum (Montouro) por onde parte com Anadia; d’ahi pela Barrosa por onde parte com Quintanella (Quintella da Igreja, Moita); segue pela Serra (da Povoa) e vae confinar com Mozarros (Monçarros) e Carrazedi (Carrazedo, pov. extincta); d’ahi vae a Cernadelo, dividindo com a Vacaricia; confronta depois pela estrada, com Morógonus (Mirógos) e vae por outra estrada antiga até ao porto de Candenaira (Candieira). A seguir, porem, começam os limites com Ventosa e depois com Arinios (Arinhos) pela Vultureira (Abitureira) seguindo a estrada de Poldrim (?) até às Mamulas Asinaram (Mamoas de Asnos?) e parte com Bolio (Bolho) e Vilarino (do Bairro); vae depois ao Fornum Tegularan (Forna da Telha, Riva-Forno) e confronta com Oes pela Ataigia (?) indo pelo caminho até à Archa Antiqua (? Infesta?) e chega ao Certoma.»

Na medida do possivel, identifico entre parenthesis, n’esta traslacção do latim, os nomes antigos com os modernos.

É curioso ver como existiam já no sec. XII todos os lugares, que hoje cercam Aguim, e como os nomes d’essas povoações ou mesmo de simples sitios perduram através de tantos seculos.

Em 24 de setembro de 1238, segundo Franklin, o cabido de Coimbra, senhorio do couto, deu foral a este, ficando assim constituido Aguim em concelho se por ventura o não era já antes.

D. Manuel reformou-lhe esse foral em 1 de julho de 1514.

O concelho e couto de Aguim, com a sua camara, vereadores, juiz ordinario, almotacês, cadeia e plourinho, existiram até á implantação do regimen liberal, que os extinguio.

Era também Aguim, desde o terceiro quartel do sec. XVI pelo menos, séde de uma capitania-mor de ordenanças, comprehendendo alem do respectivo concelho, os coutos de Mogofores, V.N. de Monçarros, etc.

O livro de toda a Fazenda, etc., Ms. da Universidade de Coimbra, de 1570, menciona já em Aguim um capitão-mor.

Quanto a população, um doc. do já citado Livro Preto menciona como existentes no lugar de Aguim, em fins do sec. XII, 12 casaes foreiros ao cabido senhorio, o que indica haver n’elle, já então, 12 fogos pelo menos; em 1527 tinha Aguim 53 fogos; em 1578 contava já 82; e o censo de 1878 dava-lhe 163, a por de 161 em Anadia.

Hoje deve ter perto de 200 fogos.

Vê-se que, mercê dos seus laboriosos habitantes a povoação tem progredido continuamente..

As ruas tem ha bastante annos denominações proprias

Nos nossos artigos sobre os Castilhos da Bairrada publicados n’este jornal, deixamos mais algumas notas históricas sobre Aguim, que não reeditaremos.

Como nota final, notaremos apenas mais que, segundo um dictado popular local, o elemento femenino de Aguim parece gosar a fama de ter cabelinho na venta:

Homem da Mata,
Mulher d’ Aguim
E mula que faz-him!
– Longe de mim

Longe de mim, é conforme.

Mas iamos apostar que a biliosa diatribe é de autoria d’alguem de Tamengos…

A etymologia do nome de Aguim é simples, conhecidas como são as suas formas evolutivas antigas.

No sec. XVIII escrevia-se Agolin
No sec. XVII e XVI Aguim e Aguin
No sec. XIII Aguin e Aguil.
No sec. XII Aguie e Aguiin
Em doc. de 1101 Aquilincomo vimos.

Esta última forma, sendo a mais antiga, é tambem a mais extensa e deve, por isso, ser a mais pura e proxima do original.

Resulta assim, claramente, que Aguim = = AguiinAquilin são uma primitiva (villa) Aquilini, isto é, “quinta ou casal pertencente a um individuo chamado Aquilino,”

Aquilino é nome de pessoa, muito usado entre os romanos.

A igreja católica, só á sua conta canonizou seis Aquilinos e duas Aquilinas.

Th. Ramires

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