A Cultura e o Desporto em Aguim

Traje usado no Rancho Vindimadeiras da Bairrada – 1ª fase (cerca de 1915 – 1918)

O que se segue é a notícia sucinta de algumas manifestações culturais e desportivas relativas e Aguim, realizadas ao longo dos anos e de que nos recordamos. Outras existiram por certo, mas, quanto a essas, esperemos que alguém as recorde.

Concursos de vestidos de papel

Entre os anos de 1920 e 1955, foi frequente a realização do baile de “Vestidos de Papel”. Trajes confeccionados pelas excelentes costureiras da terra, em papel frisado, qual deles o mais vistoso. O concurso era aberto a todas as damas, mas eram especialmente as meninas que se apresentavam [1], com os vestidos adornados e representativos de profissões, árvores, aves, objectos, etc. Recorda-se “a palmatória”, de Mariana Portela Freitas e “a menina dos rebuçados” de Lídia Lebre Baptista. Neste concurso o essencial era o sigilo. A costureira, com vários vestidos a confeccionar, era ajudada pela concorrente, a horas certas, de maneira a não coincidir com a marcação de outras. As provas eram normalmente à noite e fora de olhares estranhos. A costureira, mantendo sigilo, executava os trajes gratuitamente ou a preços simbólicos, na medida em que, para além da ideia da concorrente, estava também em causa a sua obra. O juri, no fim do baile, premiava o vestido mais vistoso, perfeito e trabalhoso. Os prémios eram normalmente cosméticos (sabonetes, águas de cheiro, etc.).

Modas de Roda

Realizaram-se dos anos 1920 a 1935. As dos jovens faziam-se em arraial, aos Domingos, durante a tarde (era lá que, normalmente, se arranjavam os namoricos); as dos adultos realizavam-se nos intervalos dos bailes (semanais, na época), constituindo um espectáculo dentro do espectáculo. Era, então, obrigatório a “moda às damas” e a “moda aos rapazes”. Premiavam-se os melhores pares com uma “moda”.

Camisolas de lã

Rancho “Vindimadeiras da Bairrada” – 2ª fase

Entre 1925 e 1940, no dia 18 de Dezembro de cada ano, dia da Padroeira (Nossa Senhora do Ó), realizou-se um concurso feminino de apresentação de camisolas tricotadas pelas próprias concorrentes. O júri, constituído para o efeito, atribuía prémios (geralmente, louça decorativa) às camisolas mais vistosas e mais artísticas.

Idas ao Buçaco

A tradição de ir ao Buçaco, em quinta-feira de Ascenção, em grupo, a pé, é muito antiga, em toda a região. Em 1915 constituíram-se, em Aguim, dois “ranchos”, o da “Capela – Ocidental”, chefiado por Manuel Gomes Fernandes e o do “Rebelho – Oriental”, comandado por António Campos “Saúde”, integrados, naturalmente pelos residentes de cada zona, deslocando-se para o Buçaco, ainda de madrugada, cantando e dançando ao despique. Lá chegados, após farta e molhada merenda, continuava o despique. Com a chegada da electricidade, em 1930, os “ranchos” passaram a ser conhecidos por “Light’s” (leia-se Laites), o da Capela e por “Lindoso” o do Rebellho. Acabada a tradição dos dois grupos, manteve-se a tradição de ir a pé ao Buçaco, valorizando-se o avental e a blusa de chita, que se faziam iguais para todas, de modo a fazerem-se notar “os de Aguim”

Bailes a Concurso

Traje do Rancho Vindimadeiras da Bairrada – 2ª fase (cerca de 1938)

Entre 1939 e 1954, criados por Luís Lebre Navega, realizaram-se, durante todo o ano bailes em que eram obrigatórias danças antigas, como a “polca”, a “valsa”, o “pé de quatro” ou a “mazurca”.

Baile dos Casados

Entre 1921 e 1938, no primeiro Domingo do Carnaval, realizava-se o Baile dos Casados que tinha como curiosidade o facto de não ser permitido a qualquer solteiro entrar na dança. Podiam, no entanto, assistir, mas o que tentasse entrar na dança era, de imediato, posto na rua, pelo Mestre Sala.

Carnaval

Sempre se festejou o Carnaval em Aguim, no entanto, foi nos anos de 1938 e 1939 que os festejos atingiram o seu auge, com cortejos de 12 e 16 carros (de bois, naturalmente), devidamente enfeitados com flores de papel, alguns cobrindo os próprios animais. Particularidade curiosa era o facto de o carro de trás criticar o que se seguia à frente. O primeiro criticava tudo. Leva a crer, por isso, que estes cortejos foram minuciosamente preparados, julgando-se que o seu grande impulsionador tenha sido António Pinto (homem de letras), que viria a ausentar-se para o Brasil. Havia apenas duas músicas para todas as letra atribuídas a cada carro.

Exemplo de uma das letras:

“Antero, Custódio e Filho,
só trabalham por dinheiro,
moram lá na rua alta,
em cima, no Castanheiro”

(consta que os visados trabalhavam por dinheiro, apenas o necessário; excelentes ferreiros, quando um amigo chegava, o serviço estava feito “que esta vida são dois dias”).

Teatro

Em 1931, realizou-se a primeira representação teatral de que há memória em Aguim, organizada pelo Prof. José Gonçalves, natural de Mortágua. A essa outras peças se seguiram. O testemunho foi passado por aquele professor primário (hoje já não há) a pessoas como América Portela Vidal, Luís Lebre Navega, entre outros que agora não ocorrem. Com o “envelhecimento” daquelas carolas a actividade foi arrefecendo, para ser revitalizada, na década de 1950, por iniciativa de Maria Lebre Castilho (Mariquitas), Lucília Castanheira e outros, mas desta vez com peças de cariz essencialmente religioso, apresentadas sobretudo no Natal.

Já em 1990, com a criação da Associação Cultural de Jovens de Aguim – AJA – constituiu-se no seu seio um núcleo de teatro que representou algumas peças e promoveu uma passagem de Trajes Antigos.

Ranchos Folclóricos

Rancho Vindimadeiras da Bairrada – 3ª fase 1966

Por iniciativa de pessoas como Calisto Costa Freitas, Luís Lebre Navega, América Portela Vidal, criou-se por volta de ano de 1915, o “Rancho Vindimadeiras da Bairrada”, que se manteve até 1950, com um pequeno interregno durante durante a 2ª Grande Guerra. Porque os trajes de antes e depois desse intervalo eram diferentes passou a designar-se I e II rancho. O rancho tinha vasto reportório e grangeou grande fama, especialmente a nível regional (Beiras e Norte) e teve convites para grandes festejos nacionais, entre os quais em Santarém em 1918 e a Exposição do Mundo Português, em 1940, para a qual fez uma música e letra especial, gravada pela então Emissora Nacional. Em 1938, este Rancho acompanhado pelo Grupo Musical Aguinense, representou o Concelho de Anadia, num cortejo dos Municípios do Distrito de Aveiro , na actual Av. Lourenço Peixinho. O carro, representando a Bairrada, enfeitado com videiras e cachos de uvas, na frente uma taça gigante de espumante, a transbordar ganhou o 1º lugar, cujo troféu foi entregue à Câmara Municipal de Anadia.

Na década de 1960, o rancho revitaliza-se pela mão de Carlos Ruas. Tinha com grande rival o Rancho de Ventosa do Bairro. As músicas e letras eram cuidadosamente criadas por pessoas como Artur Portela, Manuel Gomes Fernandes e América Portela Vidal. As danças exigiam 12 pares, o que, com o eclodir da guerra do Ultramar, começou a ser impraticável, essencialmente por falta de rapazes. Por volta de 1965, tentou-se reduzir para 6 ou 4 pares, mas as figuras “desenhadas” não resultavam. Extinguiu-se em 1967.

Grupo Musical Aguinense, acompanhando o Rancho Vindimadeiras da Bairrada – 2ª fase (década de 30)

O nosso Rancho.

Podem correr a Bairrada
do princípio até ao fim
que não encontram um rancho
como este nosso d’Aguim

É um bouquet primoroso
feito de flores formosas:
os rapazes são os cravos,
as raparigas as rosas.

Que rancho formoso
de flores mimosas!
Que montão de cravos!
Que montão de rosas!
Que lindas florinhas
nascidas no prado!
Tão frescas! Tão belas!
Que rancho adorado!

CORO:
Nós somos os cravos de doce perfume!
Nós somos dos campos bonitas, famosas!
Quando nos juntamos formamos um ramo
de rosas e cravos, de cravos e rosas.

Também no ano de 1938 foi criado o Centro Recreativo Escolar de Aguim com a finalidade de ministrar cursos de adultos.

Música

Grupo Musical Aguinense (fundado em 1934)

Em 1916 criou-se a conhecida Tuna de Aguim, com 26 elementos, entre eles, Francisco d’Almeida (Francisquinho), José d’Almeida, Manuel Frota, Arménio Rosmaninho e Manuel Gomes Fernandes (Leonardo ou Manel da Linarda). Este último veio mais tarde – 1934 – a recriar toda a estrutura da música de Aguim. A Tuna era composta de instrumentos de corda (violas, violinos, violoncelos, etc) e apenas um de sopro (flauta). Em 1925 tinha, apenas, 8 elementos (consequências da guerra?), para, em 1931, passar a integrar 18 músicos, sendo nessa época seu Mestre José Oliveira, bom músico que deixou bons músicos na família.

Em 1934 fundou-se o Grupo Musical Aguinense – GMA – tendo como Mestre o “Manuel da Leonarda”. Tinha 16 elementos que, para além dos instrumentos de corda, tocavam um sax alto, um clarinete e uma flauta; em 1936, passou a integrar a trompete. Mais tarde, tinha, também o trombone, o tenor e o barítono, o acordeão e, por fim, o orgão (instrumentos de orquestra). Vale a pena nomear os seus elementos que conseguimos recordar: além do Mestre Leonardo, António Gomes Fernandes, José Portela da Costa Freitas, António Rosmaninho, António Jorge Portela, Manuel Ferreira Bandarra, Virgilísio Ferreira, Cipriano de Oliveira Custódio, Manuel Ferreira do Vale, António Gilberto Mira (pai), Manuel Castilho, António Fernandes Bandarra (trompetista) e o vocalista Luís Lebre Navega. Mais tarde (entre 1943-1945) entraram António Cerveira Rolo (Rolito), Arménio Sá Gamboa, Alberto Fontes, Joaquim dos Santos, Manuel da Silva, António Gilberto Mira (filho), António Cerveira, Alberto Braz, Manuel Ferreira, António Oliveira, Eduardo Marques Pais e António Gomes dos Santos (estes últimos, em 1950-1954).

Orquestra Oriental Aguinense, na década de 1960

Em 1954, constitui-se a Orquestra Oriental Aguinense, para danças de salão e arraial (sinais dos tempos). Faziam parte desta Orquestra, Manuel Ferreira, António Cerveira Rolo, António Loveira, Cândido Vilar Figueiredo, António Ferreira Bandarra, António Gomes dos Santos, Eduardo Marques Pais, António Cerveira e Manuel Gomes Fernandes. Autorizada a abrilhantar actos religiosos recorria, para esse fim, a alguns elementos da extinta GMA. O envelhecimento e o desaparecimento de alguns destes elementos tem como consequência que a Orquestra Oriental Aguinense, tem nesta altura apenas sete músicos, chefiados por António Fernandes Bandarra e limita a sua actuação a actos religiosos.

Orquestra Primavera (fundada em 1965)

Em 1965, formou-se a Orquestra Primavera dirigida por António Ferreira Bandarra com os músicos José Portela da Costa Freitas, Cipriano Oliveira Custódio, António Marques Garrelhas, Cipriano Simões, José Lagoa Duarte, António Portela de Melo, Anibal Canteiro, António “Tarante”, José do Vale e a vocalista Nazaré Miranda Aniceto e com os instrumentos: bateria, violino, sax alto, sax tenor, contrabaixo de cordas, trompete e acordeão. Extinguiu-se em 1966.

Em 2 de Junho de 1982, criou-se o Conjunto “Honoris Causa” dirigido por Manuel Ferreira, que apoiava o Oriental Aguinense nos actos religiosos e depois, faziam os arraiais. Extinguiu-se em Setembro de 1987.

Desporto

Como resulta implícito do que se disse para a Cultura, também no desporto, ocorreram divergências e despiques. Aqui, não os de Cima e os de Baixo, ou os Orientais e os Ocidentais. Dividiram-se pelas cores: o amarelo e o preto.

Por volta de 1947, foi criado o Grupo Desportivo Aguinense (com o símbolo do sol e alcachofras na camisola) constituído por grande parte de jovens aguinenses, mas também um número significativo de rapazes da Curia e de Anadia. Dedicava-se ao futebol e equipava com camisola amarela e calção azul (influência do Brasil ou do Estoril Praia?). Era, sobretudo, um grupo de amigos, que se juntavam para disputar torneios, cujas despesas corriam a expensas de cada um.

Uma das primeiras equipas de futebol da Associação Recreativa Aguinense

Em 16 de Abril de 1959, constitui-se a Associação Recreativa Aguinense – ARA – que equipava de preto (à semelhança da Académica de Coimbra), com alguns rapazes que estudavam em Coimbra. Por essa época , revitalizou-se o Grupo Desportivo Aguinense, que tinha caído numa certa modorra, ao que supõe, por a sua direcção não ter aceite a entrada de algumas pessoas. Era constituído por gente menos jovem, dirigidas por António Gilberto Mira (filho).

As divergências agudizaram-se quando a ARA realizou tentativas para conseguir o antigo campo de jogo (hoje, uma vinha situada na estrada de Vale de Cid), enquanto o GDA o tinha garantido, uma vez que nunca deixara de pagar a renda. A questão resolveu-se, quando Afonso Ramos Bandarra, ferrenho sócio da Académica, ofereceu um terreno para o campo de jogos ARA.

Nasceu assim a rivalidade entre “os pretos” e “os amarelos”. O GDA teve uma actividade curta, mas frutuosa (ganhou, por exemplo, ao Grupo Desportivo da Mealhada, por 3-1, sendo este um grupo de escalão superior e de outra dimensão). Extinguiu-se finalmente em 1961. O ARA aguentou-se e acabou por aglutinar os aguinenses: alargou as dimensões do seu recinto de jogos, com o contributo de pessoas como António dos Santos, na época a residir em Moçambique e as famílias dos Drs. José Rodrigues e António Manuel Simões Faria.

A actividade desportiva da ARA tem sido intensa e importante, não apenas no futebol, senior e juvenil, como no atletismo, mas o seu historial fica para outra oportunidade.

J. Cerveira Lagoa, in Aqua Nativa n.º 6, Julho 1994

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Nota:
[1] Os homens também se apresentavam, por vezes. Recorde-se o Sr. António Fernandes Lagoa, premiado em 1921 e em 1922, com os trajes “o Carneiro” e “o Pinheiro”, confeccionados pelo próprio. (voltar)