Festa de S. José 2009

Apesar de ser hoje o dia de S. José a festa, que habitualmente se realizava no próprio dia, só vai acontecer no próximo sábado, dia 21. Esta alteração, para o fim-de-semana, permite uma maior afluência de pessoas que não têm que se preocupar com empregos ou aulas no dia seguinte.

Encontramo-nos, no próximo Sábado, no largo do Sobreirinho.

O Mistério da Foto da Capelinha de S. José – 2

O céu ao fundo entre as árvores está reduzido a uma ausência de cor devido ao monocromatismo esquálido da fotografia. Envolvendo a capela, algumas oliveiras evitam que a fotografia pareça despida. Os ramos pararam para sempre, alheios à aragem da tarde de Verão. Sim, é de tarde porque as sombras projectam-se para nascente, e é Verão porque o meu avô está de camisa de manga arregaçada. Os ramos pararam para toda a eternidade quando o clique da máquina se fez ouvir. Não é um clique. É o som que fazia a cortina, o obturador e o diafragma da máquina, em acorde; antes de ser substituído pelo estalido insípido das máquinas digitais. Aquele ruído que fazia com que as pessoas se descontraíssem da pose forçada que mantiveram durante os últimos preparativos do fotógrafo. Mas não se descontraem logo, respiram fundo primeiro, olham umas para as outras e depois é que mudam de posição, como se não fosse permitido ficarem como estavam depois da foto tirada. De seguida as conversas interrompidas continuam pouco a pouco a reformularem-se.

O fotógrafo é amador; um fotógrafo profissional fotografaria o grupo mais de perto, para se conhecerem melhor as pessoas, ou de mais longe para não cortar o pináculo da capela que tem uma estranha forma de flecha com uma cruz em cima.

O fotógrafo é seguramente o meu tio brasileiro, porque só ele reuniria parentes afastados para uma fotografia; para levar como recordação quando voltar ao Brasil.

O fotógrafo afasta-se um pouco para a direita, muito pouco, só o suficiente para não cair num buraco que está no chão. Atrás do buraco está uma enorme pedra com cerca de meio metro de altura, de forma vagamente paralelepipédica. Isto não aparece na fotografia; nem nesta nem em nenhuma outra que eu tenha visto; de certo, devido a os fotógrafos verem naquele conjunto um baixo valor estético, e uma falta de bom senso o manter-se assim uma pedra daquele tamanho com um buraco à frente durante todo o verão, mesmo em frente da capelinha de S. José.

É a pedra da sesta. Só será enterrada no dia da festa do Crasto, a oito de Setembro, para que termine o direito dos jornaleiros descansarem depois de almoço, ou melhor, depois de jantar, como se chamava à segunda refeição do dia em Aguim, que a bucha é parca mas comida com orgulho, e as palavras, se não alteram a essência das coisas, podem até fazer-nos crer que chega para empanturrar o estômago, aquilo que na realidade não enche a cova de um dente. O almoço é de manhã, com o resto da ceia da véspera, e por isso não lhe chamam pequeno, que a enxada é pesada e não se mexe sozinha.

O enterramento da pedra é um acto pouco festivo, ou nada; nessa altura a festa é em Anadia. Aqui parece mais um funeral; ou não se tratasse de oficializar a perda da sesta como um direito laboral. No dia de S. José, a 19 de Março, é uma festa dentro de outra festa. Os jazes, como começam a ser chamados os pequenos grupos musicais em que os metais vêem substituindo os acordeões e os instrumentos de corda, ficam a tocar sozinhos ao despique, nos coretos do Largo do Sobreirinho, e as pessoas vêem juntar-se em torno da entrada da capelinha para assistir a uma outra competição: uma parelha de cavadores tenta superar em rapidez os que no ano anterior desenterraram a pedra da sesta. Depois fica ali a pedra e o buraco a desafiar o bom gosto de quem alia as tradições populares à falta de desenvolvimento.

Muitos séculos depois de os Celtas nos terem deixado o seu culto da pedra, como um legado para sempre perdido, ele chega a Aguim nesta reminiscência importada da vizinha povoação abandonada de Vila Franca, há décadas atrás, acompanhando a imagem do S. José, para a qual construíram esta capelinha, à frente da qual, agora, os meus antepassados me olham através dos tempos.

Então um dia, há-de vir finalmente alguém, com a arrogância dos ignorantes e a prepotência dos espíritos pragmáticos, reduzir a brita, e sepultar debaixo de uma camada de alcatrão, definitiva e ingloriamente, esta tradição única da Pedra da Sesta.

… a CONTINUAR

A memória de um largo


Posted by Hello

Eu sou daqui!

É esta a minha nacionalidade. Sou do largo do Sobreirinho.

Assim de repente, não sei o que é que não fiz neste largo, mas sei que foi o único lugar do mundo onde joguei futebol, porque o meu amigo Faria descobriu-me habilidades onde toda a gente só via tetraplegia futebolística.
Aqui promoveu encontros entre o Sobreirinho e o Robelho; entre o Sobreirinho e a Capela e finalmente entre o Sobreirinho e o resto do mundo. Não interessa que a equipa adversária tenha sido constituída pelos habituais jogadores do Robelho e da Capela, porque nós desafiámos toda a gente!

Eu não quero saber de misérias: nós éramos os melhores! Se não fosse o almoço jogávamos o dia inteiro. As mães, que nos chamavam, é que nos obrigavam a dividir o jogo em duas partes: quatro horas de manhã e quatro horas de tarde. Chamavam-nos sem saírem de casa, sem mesuras nem preconceitos: chamavam-nos e os nossos nomes vinham no vento.

Lembrar-se-há o Largo do Sobreirinho de nós? O vento pronunciará ainda as sílabas dos nossos nomes? Durante quanto tempo terá ecoado o som das nossas corridas por aquelas ruas?

A foto é uma montagem, claro. Lá vão os mesmos homens para o campo… faz de conta que vieram do futuro; estes putos nunca jogaram aqui… faz de conta que éramos nós; a bomba de arco de ferro, que mal fazia ali?… faz de conta que não a tiraram; e a pedra da sesta lá ao fundo… faz de conta que não acabou em brita para pavimentar a rua.

A memória, já se sabe, não respeita muito bem os factos, por vezes vinga-se do passado: faz de conta.

O carinhoso nome do Sobreirinho


Posted by Hello

Por esta rua acima se vai para a Capela, por esta rua abaixo se vem para o Sobreirinho.

Sobreirinho, porque um sobreiro lhe deu o nome, não por ser pequeno mas porque o recordavam com carinho, como as criadas velhas que chamam menino aos patrões já adultos. Era tão grande que ao arrancarem-lhe o cepo descobriram água e fizeram um poço. Um poço que um dia desapareceu também.

Não sei se esta história é verdadeira mas sei que o nome não é um diminutivo é um tratamento carinhoso de criada velha.

Largo do Sobreirinho

Posted by Hello

Os lugares têm metamorfoses como as borboletas. A cada geração oferecem um rosto diferente. Este rosto do largo do Sobreirinho foi apenas um deles. Lá ao fundo, os homens vão para o campo e o regador e a máquina de sulfato, no banco, aguardam o dono para irem fazer alguma coisa também. E o que faz o quadro branco de cantaria, ali ao centro? Para que serviria? Para desafiar a imaginação de cada um: Os cães não tinham dúvidas, os putos também não. Desde baliza para jogar à bola até painel de propaganda política no 25 de Abril, serviu para tudo.