Skip to content

O Mistério da Foto da Capelinha de S. José – 1

2008 Dezembro 11
by Manuel Bastos

O sótão da casa da adega é um amontoado de lixo. E este amontoado de lixo é a arqueologia da minha vida. Objectos mortos; amortalhados de pó. Cadáveres de objectos, quietos no tempo à espera que os esqueçam de vez, para que possam finalmente dissolver-se na terra mãe de onde vieram.

Avanço furtivamente, com o sentimento de quem profana um túmulo. Afasto as teias de aranha que parecem panos impregnados com a alma do tempo, e que boleiam a forma dos objectos, como um lençol cobrindo um cadáver.
Sopro o pó de uma enchó do meu avô, e ela parece que acorda ganhando humanidade. Um foicinho da minha avó. Uma podôa do meu pai. Um bastidor da minha mãe. Sem a mortalha de pó, ressuscitam e parece que procuram as mãos dos donos, as mãos que calejaram, as mãos que os moldaram a eles. Não são objectos em série, são objectos feitos pelo uso, que ganharam o jeito do dono; noutras mãos seriam maljeitosos. Eram prolongamentos dos braços, como próteses ortopédicas; partes sobrevivas dos meus antepassados.

Caiu-me à frente uma caixa de papel levantando uma nuvem de pó.

Quando a nuvem de pó se dissipou, um grupo de pessoas olhou-me de frente. Imóveis. À medida que os meus olhos procuram os pormenores da fotografia, parece que se movimentam um pouco. A sua imobilidade dá-lhes um ar sarcástico, parecendo desafiar-me, e dou por mim a pretender apanhá-los na fraqueza de um movimento. Desvio o olhar para uma mancha do papel e volto a prestar-lhes atenção. Esta disputa demora uns segundos; o suficiente para se tornar uma patetice. Mas não consigo dominar-me. Os meus olhos traem­‑me e voltam sempre como que atraídos por aquelas figuras que parecem zombar de mim, olhando-me de frente; como um friso de espectadores estáticos mas atentos, em frente do palco; suspensos da acção que decorre aqui, onde, eu o actor, devesse dizer a próxima fala, efectuar o próximo movimento.

Há um pormenor da fotografia que acaba por me prender a atenção. A posição carinhosa e protectora do meu avô, segurando-me pelos ombros. O meu avô tinha uma má relação com os seus sentimentos. Não era homem de grandes manifestações de afecto, o que lhe valeu a alcunha de Vinagre. Lembro-me que me embalava cantando canções obscenas; e essas canções são a única manifestação de afecto de que me recordo. Vê-lo assim naquela atitude carinhosa e protectora faz­‑me subir um novelo de saudade, lentamente até à garganta, vindo não sei de que memórias.

… a CONTINUAR …

Posts relacionados:

  1. O Mistério da Foto da Capelinha de S. José – 2
  2. O Mistério da Foto da Capelinha de S. José – 3
  3. Capelinha de S. José
  4. Capelinha de S. José antiga
  5. Memorial dos combatentes do ultramar (Foto)

This website uses IntenseDebate comments, but they are not currently loaded because either your browser doesn't support JavaScript, or they didn't load fast enough.

One Response leave one →
  1. Anonymous permalink
    Dezembro 12, 2008

    “Lembro-me que me embalava cantando canções obscenas; e essas canções são a única manifestação de afecto de que me recordo” – as manifestações de afecto, felizmente, ainda não são regidas por normas. Como tal, podem advir do mais insuspeito dos sujeitos, e sob múltiplas e variadas formas. Porque não a obscenidade?

Leave a Reply

Note: You can use basic XHTML in your comments. Your email address will never be published.

Subscribe to this comment feed via RSS