Que merda tão bonita
- Que merda tão bonita! Foi o máximo a que chegaram as palavras do Ti António Mateus para expressar o deslumbramento perante aquele fenómeno magnífico.
Toda a rua da Lomba, toda a rampa do São José e o Largo do Sobreirinho, as casas, as árvores, tudo mesmo, estava coberto com uma branquíssima toalha de neve que ia engrossando com os flocos que desciam; não caíam, desciam do céu lentamente.
O Ti António Mateus não era tão rude quanto as suas palavras faziam crer; mais do que uma vez o vi de olhos brilhantes a atraiçoarem aquela postura de homem mais habituado às coisas tratadas com a dureza do ferro da enxada do que às subtilezas da linguagem criativa, ao ponto de um dia lhe terem dito que se passasse à frente de um espelho corria o risco de dizer mal de si mesmo.
Mas agora ali de nariz no ar, olhando os flocos de neve a balouçarem no ar, até finalmente pousarem suavemente na sua própria rua, á sua frente, ele esmerou-se na sua capacidade de expressão e não se cansava de repetir – Que merda tão bonita.
Para mim o Ti António Mateus sempre foi alguém que possuía um dom. Ele metia-se no meio de uma molhada de verga e quando saía de lá aparecia o poceiro para a vindima mais perfeito que a mente humana pode imaginar. Entretanto à sua volta os vimes ganhavam uma vida surpreendente; serpenteavam, sibilavam no ar, assobiavam e invariavelmente acertavam-nos nas orelhas quando nos aproximávamos demais.
Em poucos minutos aparecia no chão da rua da Lomba um poceiro completo, mas enquanto o poceiro ia tomando forma, visto de longe, ele parecia um tocador de harpa dedilhando os vimes que vibravam em seu redor.
Mas naquele dia, logo ao amanhecer, ainda de ceroulas, o máximo que o Ti António Mateus poderia fazer era usar o parco e agreste vocabulário de que dispunha para mostrar como a sua alma sensível reagia às manifestações da natureza.
Lá de cima da minha janela do quarto via-se bem toda a beleza que a neve acrescentara àquele cenário tão meu conhecido.
Uma toalha branca suavizando o casario rude e prolixo, no fundo, simplificando o que a mão dos homens tantas vezes complica; uma toalha harmonizando todas as coisas, tornando-as uma coisa só – branca, suave e doce; uma película de silêncio calando toda a natureza, fazendo qualquer som parecer um sacrilégio; uma túnica branca e silenciosa deixando espaço vazio para a imaginação, como a tela em branco faz com o pintor ou o silêncio com o músico. Logo, logo a imaginação de cada um vai preenchendo esse vazio, porque a mente humana não tolera o vazio. Eu desde esse dia que ouço a voz divina da soprano June Anderson dizendo que o seu coração pagão vacila entre a lascívia e o pudor.
Inútil, a máquina fotográfica jazia abandonada e sem rolo numa gaveta e eu de câmara super 8 na mão, desesperadamente, tentava guardar a impossível reprodução daquela beleza. Juntei-as hoje, as imagens tremeluzentes e aquela voz inverosímil, para as partilhar convosco, mas não consigo descrever o que senti naquela altura porque todas as palavras que disser não passarão de um simples exercício literário. Às vezes as palavras são desnecessárias, sobretudo quando uma beleza inesperada nos apanha de ceroulas à porta de casa. Dizer mais para quê? Aquela merda era mesmo bonita!
