Mil e Um Mistérios

Meia-noite no relógio de Aguim. Toda a povoação dorme. A derradeira luz, que palpitava através de cortinas brancas em vidraça meio levantada numa casinha alva e decente, agora apagou-se. É a pousada do mestre-escola; mas as cortinas, o prolixo velar, denunciam antes o quarto da sobrinha, que o seu. Ele, mestre Ambrósio, conta cinquenta anos; ela, a Sr.ª Angélica, segundo uns, segundo outros a Sr.ª D. Angélica, só conta dezasseis. Ele mói o seu dia entre rapazes rudes e travessos; ela distrai o seu a costurar diante de lindos romances modernos, emprestados às escondidas pela criada grave de sua madrinha e sempre abertos em cima da almofada de costura; e não os interrompe senão para invejar as flamantes galas dos jornais das modas.

“Mil e Um Mistérios”, António Feliciano de Castilho (Início do romance infelizmente inacabado do poeta romântico)

Contribuição de Manuel Correia de Bastos

Publicado por

Zé Cipriano
Programador informático. Depois de um site, chamado "Aguim Online" (fundado em 1998), iniciou o "aguim.net" em 2003.